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Treinadora de futebol e a atuação no mercado

O Futsal e o Futebol são modalidades dinâmicas em sua essência. Apesar de tornar-se com o tempo umas das modalidades mais praticadas e de fácil acesso para as pessoas, algumas estruturas de organização social e cultural refletem o conjunto de trabalhadores que atuam nestes espaços, em especial as mulheres como treinadora de futebol.

A ascensão e permanência de mulheres liderando equipes esportivas no Brasil tem baixa representatividade e isso só contribui para o predomínio masculino nesse campo profissional.

Infelizmente, há poucos estudos e pesquisas referentes a esta representatividade feminina no âmbito esportivo. De acordo com uma pesquisa realizada em 2013, das 259 federações esportivas de 22 modalidades no Brasil, apenas 7% dos técnicos esportivos são mulheres. E do total de federações pesquisadas, 71,4% não possuem mulheres cadastradas como técnicas.

Retrato social na Liga Nacional de Futsal e Brasileirão Feminino

A Liga Nacional de Futsal, por exemplo, é considerada a mais importante da América do Sul e uma das mais disputadas do mundo. No ano de 2021 a categoria masculina contou com a participação de 22 equipes, de mais de sete estados enquanto a categoria feminina, contou com 12 equipes ao total. Nas 12 equipes femininas, os resultados indicaram a presença de apenas 3 mulheres como treinadoras de futsal,  enquanto 9 homens eram treinadores em equipes femininas da competição acima descrita.

Além disso, os resultados no Futsal apresentam semelhanças com os resultados encontrados no futebol. A Série A do Brasileirão Feminino, considerada principal Liga Brasileira de Futebol profissional entre clubes do Brasil, disputada desde 2013, conta atualmente com 16 equipes, sendo 09 delas comandadas por treinadores  e apenas sete por treinadoras.

Por que a baixa representatividade de mulheres como treinadora de futebol?

Uma prática incompatível com a natureza feminina

Reportando a construção histórica, a participação feminina no Futsal foi negada na década de 40, com base no Decreto de Lei 3.199, que afirmava em seu artigo 54 que: “as mulheres não se permitirão a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”. Um pensamento retrógrado que permanece em alguns momentos ainda na atualidade.

O domínio masculino e a aceitação social

É notório que a medida em que avançamos para o alto rendimento, o número de mulheres reduz simbolicamente como membras da comissão técnica. Três motivos merecem destaque para essa redução. O primeiro motivo é o domínio masculino que não permite que a mulher suba de posição, restringindo-as à base da pirâmide familiar ou de trabalho (na maioria das vezes). O segundo motivo é a própria mulher acomodar-se, pois quanto mais elevado o nível, maior será a dedicação a vida esportiva. Em contraponto com a vida pessoal e familiar, cuidado com os filhos, as mulheres optam pelas bases da pirâmide familiar. E o terceiro motivo é  a Aceitação feminina da exclusão, em que é possível observar que a maioria acaba se acomodando e interiorizando o domínio masculino, não se aventurando e enfrentando os obstáculos. Portanto, este torna-se bem mais ardiloso do que para os homens.

O perfil para o cargo

É incutido na sociedade, sobretudo no ambiente do futebol,  que para ser técnico é preciso ter vivenciado a modalidade como atleta para identificar as emoções em quadra ou do campo com mais ênfase. Também é construído que a postura firme e o comportamento mais “agressivo” do treinador estejam presente nos treinamentos e partidas oficiais. Entretanto, sabemos que normalmente, a treinadora de futebol têm uma sensibilidade e um carisma mais evidente, que por muitas vezes transparece aos olhos de quem está fora, que a equipe está sem comando ou algo relacionado.

Para conseguir uma posição na comissão técnica de alto rendimento, uma mulher teria que possuir, não só o que é explicitamente exigido pela descrição do cargo, como todos os atributos que os profissionais  masculinos determinam que são: uma estatura física avantajada, uma voz ou aptidões agressivas, segurança,  autoridade dita como natural para quais os homens foram preparados e treinados enquanto homens.

A realidade Feminina nos espaços masculinizados

No entanto, cabe ressaltar que há mulheres afirmando-se enquanto treinadora de futebol. No Brasil a treinadora Maria Cristina, contribuiu para a estruturação do Futsal Feminino brasileiro. Foi no clube Sabesp, em São Paulo, que ela teve seu maior destaque enquanto técnica. Entre os anos 1996 e 2009, foi campeã da Copa Algarve/Portugal (considerado como um mundial de clubes), hexacampeã estadual, octacampeã da Copa Topper Série Ouro, pentacampeã da Taça Brasil, entre muitos outros títulos.

Também chegou ao comando da primeira seleção de Futsal feminina para participar de um desafio internacional contra o Paraguai nos jogos que aconteceram na cidade de Londrina e Cornélio Procópio (PR) em dezembro de 2001. Maria Cristina permaneceu como técnica até o ano de 2019, acumulando mais 101 títulos em sua trajetória profissional.

Na mesma linha do assunto mencionamos a técnica Cris Souza, que ficou entre as 10 melhores treinadoras de futsal do mundo entre homens e mulheres no ano de 2019. Cris atua como técnica da equipe Lince/Taboão da Serra- SP e já conquistou títulos estaduais e nacionais.

É desafiador  encontrarmos mulheres referências a frente de grandes trabalhos no Futsal, porém, alguns nomes já estão presentes na história servindo de exemplo para outras serem escritas.

Como contribuir para a maior representatividade da mulher nos espaços esportivos?

Encontrar a solução do problema não se constitui como tarefa individual, mas coletiva. A escola como espaço transformador pode ser um aliado.

Como proposição nas aulas de Educação Física, citamos a abordagem com temas sobre gênero, sobre a exclusão dos menos habilidosos, na prática do futsal, questionamentos sobre o motivo pelo qual se criou essas barreiras com as mulheres se firmando enquanto treinadora de futebol, e /ou jogadoras, entre outros. Estes vêm de encontro a pedagogia transformadora, possibilitando no currículo escolar um diálogo com maior embasamento e esferas superiores da objetivação humana.

Portanto, estes temas quando discutidos de forma contextualizadas podem auxiliar e amenizar estes embates sobre gênero, referindo-se ao esporte como um espaço para ser ocupado por todos (as), em especial mulheres treinadoras.

Links de Referências

As mulheres e o esporte olímpico brasileiro entre as décadas de 1930 a 1960 – as políticas públicas do esporte e da educação física

Novo Futsal Brasileiro

O Percurso de mulheres como técnicas esportivas no Brasil.

A baixa representatividade de mulheres como técnicas esportivas no Brasil.

Futsal e Futebol: Bases metodológicas.

Confira abaixo um episódio do Podcast sobre o assunto:

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O Talento no futebol é treinável?

O que é talento no futebol? Primeiramente, palavra “talento” serve para classificar um indivíduo que demonstra um conjunto de aptidões para o desenvolvimento de uma atividade específica. No futebol usamos a expressão “jogador talentoso”, os quais são alvos dos scouts desde a base. Por vezes, o fator tempo não é devidamente respeitado, o que influencia diretamente na evolução do atleta.

Talento no futebol: Inato ou adquirido?

Até ao final do seculo XX, o talento era exclusivamente considerado inato. No entanto, a partir dessa época, registrou-se uma mudança de paradigma. Dessa forma, devido à intensificação dos estudos, começamos a perceber a lógica do desenvolvimento, do treino e do contexto ambiental. Sendo isso a base da evolução do talento, surgiu assim o fator “contexto”.

O contexto é onde ocorre a exposição da prática, sendo ele essencial para o desenvolvimento do desempenho do jogador. Assim, para explicar as diferenças intra-individuais no desempenho dos jogadores, o papel do contexto e a prática da atividade assume destaque, em detrimento das influências genéticas.

Segundo Coyle em seu livro publicado em 2012, a motivação é um consenso para o desenvolvimento do talento no futebol e em outras áreas. Ele cita que o talento começa em pequenos e poderosos encontros. Ou seja, estimulando a motivação e vinculando a nossa identidade a uma pessoa ou grupo de alto desempenho. Isto é chamado ignição, em outras palavras, um pequeno pensamento de mudança que ilumina o nosso inconsciente, dizendo: “eu poderia ser eles”.

Esta linha de pensamento foi decisiva na forma como se passou a perceber e conceber o talento, sendo as variáveis de mais destaque nesta temática:

  • Contexto (treino e prática);
  • Social (influência dos pais, situação econômica, treinadores, colegas…);
  • Psicológica (motivações).

Ao acreditar-se no talento inato põe-se em desconfiança o papel da aprendizagem, do treino e da capacidade transformadora, sendo elas capacitadoras dos jogadores.

Identificação de talento

O futebol é um meio muito competitivo. Portanto, a identificação de talento, principalmente numa fase precoce, torna-se uma vantagem competitiva para os clubes, tanto ao nível desportivo como financeiro. Dessa forma, permite que estes tenham, nos seus elencos, bons jogadores sem despender recursos financeiros na sua aquisição.

No entanto, o processo de identificação de talento é bastante subjetivo, pois os jogadores têm fases de maturação diferentes. Neste sentido, o autor Júlio Garganta em 2009 disse que, no processo de recrutamento e seleção, o foco dos scouts recai essencialmente nos jogadores com um rendimento acima da média ou, ainda, sobre aqueles que demonstram condições de evolução num processo de treino estruturado. Num estudo publicado em 2009 realizado com oito treinadores de formação da seleção nacional dinamarquesa, eles mencionaram que utilizam a sua intuição e experiência para identificar padrões nos jogadores. Sendo os dois fatores mencionados por Garganta como base para suas decisões.

No processo de treino, mesmo que um atleta tenha uma orientação adequada, oportunidades precoces e muito incentivo, o sucesso nem sempre estará garantido. Apesar de atrativa e apelativa, a ideia na qual a prática leva à perfeição não parece ser realista. Porém, as explicações em termos práticos são insuficientes, valorizando também as características hereditárias.

Outro fato importante é a predisposição genética do indivíduo que pode interferir no desempenho desportivo. Nem todas as crianças conseguem responder positivamente às oportunidades e incentivos.

O que aprendemos sobre talento no futebol

Portanto, desempenhos elevados não estão em uma fórmula mágica. Há muitas formas de chegar lá, sendo extremamente difícil associar os fatores em questão.

A excelência no esporte é o resultado da conjugação entre genética e o ambiente envolvente. Mesmo pressupondo que existem influências genéticas no alto desempenho, elas devem ser entendidas de forma probabilística para obtenção do sucesso, sendo necessárias condições ambientais apropriadas para que o indivíduo se destaque. Deste modo, concluímos que o talento é algo inato e adquirido, ou seja, todos os indivíduos têm essa capacidade. Porém, depende do aperfeiçoamento, do interesse do praticante, de uma boa capacidade de relacionamento interpessoal, adaptações a diferentes contextos e disciplina.

Confira abaixo um episódio do Podcast sobre o assunto:

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Métodos de Ensino no Futebol

Neste texto, explicaremos sobre os principais métodos de ensino do Futebol para você compreender melhor a respeito deste assunto.

Modalidades coletivas como o Futebol, por exemplo, possuem como característica principal a organização do jogo entre ataque, defesa e transições. Entretanto, no Futebol também há a presença de princípios e intenções táticas pautadas dentro daquilo que o jogo oferece e exige. Portanto, o processo de ensino do Futebol requer a aplicação de princípios didáticos, pautados em metodologias e ações pedagógicas que contemplem um ensino eficiente.

De maneira geral, os métodos de ensino no futebol mais conhecidos na literatura e que exemplificaremos neste texto são os métodos: analíticos, globais e mistos. Porém, outros métodos e abordagens de ensino estão presentes na literatura com características que se encaixam ora nos métodos analíticos, ora nos globais. A exemplo, estão os métodos situacionais, os métodos dos jogos reduzidos, os métodos confrontacionais entre outros.

Mas quais as características predominantes nas ações dos principais métodos de ensino no Futebol?

Método Analítico

O método analítico é muito conhecido pela sequência de “exercícios técnicos¨ isolados. Caracteriza-se pela aprendizagem através das técnicas e fundamentos, sem o envolvimento de situações de jogo, ou seja, em alguns momentos, sem a presença de companheiros e do adversário.  Este método, dá ênfase à biomecânica do movimento, e a técnica é desenvolvida em um processo sequencial. Partindo do mais simples para o mais complexo, em uma perspectiva descontextualizada do jogo em si, pois a prioridade é o padrão do movimento.

Método Global

O método global fundamenta-se em desenvolver estruturas de jogos menos complexas que o jogo formal, como jogos pré-desportivos, recreativos, de iniciação, etc. Esta metodologia deverá promover atividades/jogos desafiadores, em que problemas táticos são constantemente exigidos durante os jogos. Assim, o jogador é estimulado a pensar e tomar decisões de forma contínua.  Ao invés de enfatizar a aprendizagem de fundamentos técnicos isolados, o método global estimula a capacidade de descoberta pela prática através do desenvolvimento do jogo.

Estes jogos, portanto, propiciam o contato direto do jogador com o adversário, em um ambiente instável com ou sem bola de forma dinâmica. Costuma-se afirmar, que este ensino se pauta em três fatores: comportamento tático; desenvolvimento técnico; e o domínio do espaço de jogo.

Método Misto

É a mescla entre os dois métodos de ensino explicitados acima. Parte da abordagem técnica no início da sessão de treino e finaliza com a prática de atividades em formato de jogos.  Este método possibilita mais vivências práticas contextualizadas se comparado ao analítico, pois quando o atleta não consegue executar tal função no jogo eficazmente, o treinador utiliza uma série de exercícios ou jogos com ênfase na melhora do processo, permitindo correções e evoluindo para o jogo formal.

Além destes, outros métodos também são estudados na literatura:

Método Situacional

Este método é caracterizado pela prática de situações de jogo semi-estruturadas (situações extraídas do jogo), que envolvem comportamentos individuais e coletivos. A ênfase deste método é desenvolver a capacidade cognitiva do atleta no seu espaço de jogo, como a percepção, antecipação, e tomadas de decisão; com e sem bola. Alguns autores denominam este ensino como jogos condicionados ou métodos de série de jogos. Na prática, o professor adapta espaço, número de atletas, regras, mas sem alterar os princípios do jogo.

De maneira geral, este método permite desenvolver competências para os atletas solucionarem os problemas específicos do esporte através do desenvolvimento das capacidades cognitivas, coordenativas e técnico-motoras.

Método dos Jogos reduzidos

Em princípio, alguns estudos contemplam também o método de jogos reduzidos, na qual são realizados jogos em espaços pequenos, onde os elementos da estrutura das modalidades coletivas devem estar presentes. São estes os elementos: bola; regras; espaço; adversários; colegas; meta. Os jogos vão sendo adaptados conforme o objetivo do treino e do treinador.

Métodos de confrontação ou jogo formal

Além disso, na literatura, encontra-se o método de confrontação, ou jogo formal. Este consiste em aprender o jogo com suas características formais, sem divisões de etapas, ou objetivos preliminares a serem trabalhados. Um exemplo clássico, é o “coletivo”, onde a aprendizagem se dá através da organização do jogo formal entre o confronto das duas equipes. A estruturação desta atividade está relacionada diretamente com a busca pela vitória, seja na divisão das equipes, na elaboração de estratégias, no confronto direto entre os jogadores, entre outros.

O que entendemos sobre Métodos de Ensino no Futebol?

Contudo, fica claro que o professor e/ou treinador precisa ter conhecimento sobre a existências destas metodologias, da pedagogia e dos processos de ensino aprendizagem, além de recorrer ao método de ensino conforme o momento e situação durante seus treinos e aulas. Pois, o professor/treinador é o agente mediador da compreensão do jogo com seus atletas. Desse modo, a utilização das metodologias vêm de encontro com a realidade social, com a adequação a faixa etária dos atletas, seja a abordagem em escolinhas, clubes, etc.

Durante as partidas é comum evidenciarmos que os atletas que mais se destacam em campo, são aqueles que melhor conseguem selecionar as informações, e antecipam melhor as situações específicas do jogo. E estas ações cognitivas e motoras devem ser treinadas. Por isso, é essencial que na sessão de treinamento o contexto de jogo e o comportamento inteligente do atleta/aluno sejam desenvolvidos. Mas qual o caminho para alcançar tal objetivo? As metodologias servem justamente para isso, para embasar o ensino do treinador.

Confira abaixo um episódio do Podcast sobre o assunto:

Referências para Leitura sobre métodos de ensino no futebol:

Cotta, Rafael Martins. Treino é jogo! E jogo é treino! A especificidade do treinamento no futebol atual- Rafael Martins Cotta.

Moreira, Renato Lopes. Tática no Futsal: anotações teóricas e práticas sobre o jogo.

Balzano, Otávio Nogueira. Futsal: Treinamento com jogos táticos por compreensão.

GRAÇA, A.; MESQUITA, I. A investigação sobre os modelos de ensino dos jogos desportivos. Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, v.7.

Contato da Autora:
Instagram: @Torettifaveri

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Como fazer o Curso de Treinador de Futebol da CBF Academy?

No Brasil, não só temos inúmeras pessoas que jogam e assistem futebol, como também existem muitos aspirantes a treinadores que sonham em seguir uma carreira nesse esporte. E o que pouca gente talvez saiba, é sobre a existência de uma das formas mais renomadas e reconhecidas de se capacitar como treinador de futebol no Brasil. Essa formação é promovida através dos cursos de treinadores da CBF Academy, onde é possível obter uma Licença para ser técnico de futebol. 

Embora legalmente ainda não haja a obrigatoriedade dos cursos da CBF para ser treinador de Futebol, a CBF nos últimos anos vêm capacitando treinadores pelo Brasil com o intuito de permitir com que grande parte dos profissionais tenham uma qualificação e sejam licenciados para atuar e treinar jovens e adultos. Esse modelo é aplicado pela UEFA e também por outros países membros da Conmebol, e no Brasil, embora com algumas dificuldades de logística e de custos, a CBF vêm obtendo sucesso na implementação das licenças.

Mas como funcionam as Licenças da CBF?

Vamos te explicar como é o processo para se inscrever e participar das licenças. Esse entendimento pode ser um passo importante para você iniciar a sua formação para ser treinador ou treinadora de sucesso no cenário brasileiro e internacional.

Antes de tudo, vale destacar que a CBF Academy é uma escola de formação de treinadores organizada e gerenciada pela Confederação Brasileira de Futebol. A CBF Academy oferece cursos e licenças de formação para treinadores de futebol de todas as categorias, desde a base até o futebol profissional.

Para obter as licenças da CBF, o candidato deve concorrer a algumas das vagas nos programas de formação. Esses programas acontecem em diferentes capitais brasileiras conforme calendário liberado no início de cada ano. Além disso, para participar das licenças, o candidato deve ser formado no curso de Educação Física, ter comprovada a atuação como ex-atleta profissional ou ter trabalhado como treinador de futebol em ligas oficiais durante um período.

O que são as Licenças?

As licenças da CBF Academy para treinadores de futebol têm uma ordem específica na qual devem ser obtidas. A CBF Academy oferece cursos de treinador de futebol em diferentes níveis, adequados para aspirantes a treinadores com diversos níveis de experiência e formação. Existem diferentes níveis, denominadas Licenças C, B, A e PRO. Lembrando que elas são progressivas e equivalentes, ou seja, para adquirir a Licença B, é necessário realizar a licença anterior, que neste caso seria a Licença C.

Vamos entender cada uma delas:

Licença C

A Licença C é a primeira delas e visa principalmente a formação de treinadores que trabalham em escolas de futebol. Durante o curso, são abordadas diversas temáticas, como primeiros socorros e o funcionamento do treinamento para crianças e adolescentes. Essa licença é ideal para aspirantes a treinador que estão no início de suas carreiras. Em 2023, o investimento necessário para obter a Licença C da CBF é de R$5.300,00.

Licença B

A licença B já é uma etapa mais detalhada e focada na formação de treinadores, permitindo que eles trabalhem em equipes de futebol amador e profissional. 

Durante este nível, os treinadores adquirem conhecimentos sobre a alimentação de jovens talentos brasileiros, aprendem sobre a parte fisiológica e também se aprofundam na cultura do futebol brasileiro. Atualmente, em 2023, o investimento necessário para obter a Licença B da CBF é de R$8.200,00.

Licença A

Já a licença A é uma qualificação mais avançada para treinadores de futebol, permitindo que eles trabalhem em equipes de alto nível. Nesse estágio, os participantes exploram aspectos mais complexos do jogo, como análise tática, periodização do treinamento, psicologia esportiva e estratégias de jogo. O valor atual para a obtenção da Licença A da CBF Academy é de R$ 10.500,00 em 2023. Essa qualificação é fundamental para treinadores que pretendem assumir cargos de liderança em clubes de elite no Brasil.

Licença PRO

Para participar da Licença PRO, um treinador deverá receber um convite da entidade. Essa licença se destina a profissionais da elite do futebol nacional.  Atualmente, em 2023, o valor da maior licença da CBF é de R$ 20.900,00.

Portanto, as licenças da CBF proporcionam aos treinadores uma formação de extrema qualidade para que eles possam evoluir cada vez mais no mercado do futebol. Porém, é importante ressaltar que a questão da logística pode ser uma dificuldade, já que as aulas presenciais são apenas em capitais do Brasil e em momentos específicos.

Lembrando que as informações encontradas nesse texto podem estar desatualizadas dependendo da época que você o lê, então é importante ficar sempre atento às atualizações no próprio site da CBF.

Essas e outras informações sobre as licenças da CBF você pode encontrar no site

Como se inscrever em cursos de treinadores da CBF?

Após escolher o nível do curso que melhor se adequa ao seu perfil, o próximo passo é realizar a inscrição. O processo de inscrição pode variar conforme a disponibilidade de vagas e a demanda por cada nível, mas geralmente envolve os seguintes passos:

  • Inscrição no site da CBF
  • Envio de documentos
  • Aprovação na próxima turma
  • Pagamento de taxas
  • Matrícula

Uma vez matriculado no Curso de Treinador de Futebol da CBF Academy, é crucial manter um alto nível de comprometimento e participação ativa. Além da presença, é importante manter um acompanhamento do conteúdo, estudos no formato remoto, dedicação e participação nas aulas práticas.

Ao final, é importante se preparar para avaliações e exames periódicos. A obtenção de notas satisfatórias é fundamental para a conclusão bem-sucedida do curso. E após concluir com sucesso todas as etapas do curso, você estará pronto para receber sua Licença como Treinador de Futebol da CBF Academy. 

A conclusão pode variar conforme o nível do curso, mas geralmente inclui a aprovação nas avaliações e em treinamentos práticos. Ao concluir o curso, os alunos recebem a licença da CBF. Essa tão sonhada licença, é um documento que autoriza o treinador a trabalhar em equipes de futebol segundo a categoria da licença.

Neste link você pode acessar o regulamento geral das Licenças 

Preciso fazer Estágios para ter Licenças da CBF? 

Dependendo do nível do curso, você pode ser obrigado a realizar estágios ou adquirir experiência prática em treinamento de equipes.

Para ser treinador da elite do futebol brasileiro, é obrigatório possuir as Licenças A ou PRO. Nas licenças inferiores, o único pré-requisito no âmbito da formação é ser graduado em Educação Física. No entanto, as vagas são limitadas e os treinadores são selecionados após uma análise curricular realizada pela CBF.

Além dos cursos de formação, a CBF Academy também oferece cursos de atualização e especialização para treinadores de futebol.

Vale a pena fazer o curso da CBF?

De maneira simples, sim. O curso de treinador de futebol da CBF Academy é uma excelente oportunidade para quem deseja se tornar um treinador de futebol profissional. O curso oferece uma formação completa, que prepara os candidatos para trabalhar em equipes de futebol em todas as categorias.

Além das informações apresentadas neste texto, é importante ressaltar que a CBF Academy está constantemente atualizando seus cursos para atender às necessidades do mercado. Por isso, é importante consultar o site da CBF Academy para obter as informações mais atualizadas sobre os cursos e as exigências para inscrição.

As licenças da CBF são atualmente a principal porta de entrada para o mercado de futebol no Brasil e representam um investimento muito valioso para quem deseja trabalhar nessa área. Nada impede também de você buscar qualificação e capacitações em outros locais. Aqui no Ciência da Bola, por exemplo, sempre ofertamos conteúdos e formações para se atualizar, mesmo para aqueles com ou sem as licenças.

Confira abaixo um episódio do Podcast sobre como é ser treinador de futebol:

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Treinamento de goleiros na infância

Os Jogos Esportivos Coletivos como o futsal, futebol e handebol, são modalidades que contam com diversas posições. Sabemos que é muito comum a preocupação em organizar e ensinar as funções de cada posição desde a tenra idade para desenvolver suas potencialidades. No entanto, o treinamento de goleiro muitas vezes fica aquém, em comparação ao restante das posições.

Compreendemos também que é mais comum a influência dos pais e/ou responsáveis por seus filhos (as) para serem jogadores de linha, havendo pouca procura para ser goleiro. Mas, quando encontramos, é necessário ter um olhar pedagógico específico para tal.  

Mas como realizar uma abordagem educativa com esta posição?

Em princípio, nesta fase, o aluno precisa ter apreço por esta posição. Logo, compreendemos que dos 07 aos 10 anos os alunos começam a interiorizar os esquemas de ações, simples e concretas, por meio da diversidade de vivências.

Do mesmo modo, o jogo situacional comportamental deve ser enfatizado. O aluno precisa se situar dentro da área, ter noção espacial e de regras, entendendo ser o único que pode tocar na bola com as mãos no futebol e futsal, por exemplo. Bem como, identificar quem são seus colegas de equipe na reposição de bola.

Em suma, algumas reflexões pedagógicas são necessárias para o planejamento de aula:

  • Quais os movimentos mais importantes que os goleiros realizam durante as partidas?
  • Como realizá-los?
  • Onde o goleiro pode jogar dentro da quadra?
  • Como o goleiro deve se posicionar no momento do escanteio e reposição de bola?
  • O aluno (a) precisa gostar do que realiza e se sentir confiante.

Como realizar o treinamento de goleiro de futsal para a criança?

Empunhadura ou pegada

Sob o mesmo ponto de vista da premissa acima sobre o planejamento contextualizado, a ação do movimento precisa ter sentido para quem realiza. Dentre os fundamentos específicos da posição, a empunhadura ou pegada, movimento este realizado com as mãos para agarrar a bola, é um dos mais utilizados.

Nesse sentido, para desenvolver a técnica, o professor pode estar utilizando diversas bolas, de diferentes tamanhos, inclusive bolinhas de tênis que após o quique toma direções distintas, possibilitando a velocidade de reação do movimento.

As atividades com constantes mudanças de direções, sejam elas quicando a bola contra o chão e realizando a empunhadura, ou deslocamentos frontais e de costas lançando a bola para cima são importantes inclusive para o aquecimento inicial, caracterizando situações técnicas e de espaço temporal.

Base

Outro fundamento do goleiro de futsal é a base. Movimento importante para defesas de bolas rasteiras e saídas no 1×1. Logicamente que há todo uma complexidade envolvida nas situações de jogo e em qual situação tal fundamento será realizado. No entanto, movimentos simples de ações corporais trabalhados durante o treinamento auxiliam no processo de ensino aprendizagem global do aluno.

O profissional pode organizar atividades com deslocamentos e dois fundamentos em simultâneo, favorecendo a tomada de decisão rápida do aluno e a visão ampla do ambiente (espaço, traves, bola e jogador).

Trabalhos técnicos-táticos

Outro ponto importante são os trabalhos técnicos táticos de 1×1 com alunos (as) de linha. Estes desenvolvem a noção do tempo de chute do jogador, noção de como se deslocar conforme o espaço onde a bola está, além do enfrentamento com o adversário e defesas de finalizações dentro e fora da área.

A atividade denominada “espelho” também é essencial para automatização da ação corporal. Inicialmente, pode ser realizada sem bola, onde o profissional permanece de frente para os alunos (as) executando os movimentos com calma, enquanto estes repetem as ações. É um momento de correção, ajustes e automatização do movimento. Logo o elemento bola pode estar sendo introduzido e adicionado a empunhadura e/ou agarre.

As possibilidades de ensino são enormes. Assim, é importante que se tenha objetivos claros de aulas/treinos e sequência partindo do mais simples para o mais complexo.

Por fim, o mais importante é o goleiro (a) se sentir confiante debaixo das traves. Esta confiança se dá em um processo de reforço positivo entre treinos e jogos e, principalmente, ao ter a compreensão do que está fazendo dentro de quadra. Como resultado, o treinamento de goleiro de qualidade dará confiança e qualidades técnico-táticas fundamentais para a posição.

Fontes e Referências:

A epistemologia genética escrito por Jean Piaget

Confira abaixo um episódio do Podcast sobre o assunto:

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O trabalho do treinador de futebol e a influência da paisagem social

O futebol possui fatores sociais que influenciam o trabalho dos profissionais envolvidos de acordo com cada ambiente. Desta forma, o sucesso do trabalho do treinador de futebol não depende só de saber sobre tática e treinamento, mas também de instigar os atletas, gerir conflitos e lidar com dirigentes e torcedores.

No entanto, a maioria dos treinadores foca exclusivamente em conteúdos de treino e, às vezes, são incapazes de interpretar a paisagem social em que está inserido.

A paisagem social se refere à cultura dominante do local, os bons e maus comportamentos dos profissionais ao lado, os indivíduos mais influentes do grupo, o tipo de poder utilizado, etc. Portanto, além de auxiliar a habituação no trabalho do treinador de futebol, a boa interpretação da paisagem social ajuda a controlar diversos fatores e acelera o processo de adaptação ao modelo de jogo.

Diante disso, a leitura da paisagem social apresenta algumas características, como:

  1. Conhecimento da micropolítica;
  2. Liderança;
  3. Estratégias para gerir conflitos.

Conhecimento da Micropolítica

Segundo o livro: The Politics of Life in Schools: Power, Conflict, and Cooperation, a micropolítica diz respeito ao uso do poder formal e informal pelos indivíduos ou grupos para alcançar os seus objetivos nas organizações, ou seja, como a pessoa utilizará o poder para se proteger e para influenciar os outros.

Além disso, investigadores observaram os comportamentos dos treinadores na Liga Inglesa de Futebol durante o treino, e identificaram o uso de três categorias de poder: legítimo, informacional e expert.

  • Legítimo: permite tomar decisões pela posição que possui na organização social;
  • Informacional: é determinado pela argumentação que a pessoa apresenta, de modo a influenciar uma mudança no comportamento;
  • Expert: é exposto através do acúmulo de aprendizados, demonstrando todo o seu conhecimento e experiência;

Para os treinadores de elite, o poder não funciona apenas para aumentar a autoconfiança dos atletas, mas também para reforçar os comportamentos desejados pelos jogadores. Mas, lembre-se que o poder não depende apenas da hierarquia, logo, pode ser exercido por indivíduos situados em escalões menores, desde que saibam ser líderes.

Liderança

A liderança no esporte engloba várias dimensões, tais como: tomada de decisão, feedbacks, relações interpessoais e administração da equipe. No futebol, os atletas podem ser influenciados pelo treinador, sendo possível citar algumas referências quando o assunto é liderança: Tite, José Mourinho e Carlo Ancelotti. Mas, antes de adquirirem esta virtude, foram obrigados a desenvolvê-la a partir dos conflitos experienciados, dado que são inevitáveis em organizações sociais.

As pessoas discordam devido aos objetivos incompatíveis, interpretações diferentes e/ou possuírem valores opostos. Muitos estudiosos encaram o conflito como uma realidade necessária para o desenvolvimento pessoal.

Sendo assim, é fundamental saber geri-los de forma que ambas as partes sejam avaliadas e dialoguem, tornando isso em algo construtivista.

Estratégias para gerir conflitos

Treinadores de topo utilizam estratégias de persuasão e manipulação de circunstâncias para obter o resultado pretendido. Por exemplo, a série “The Playbook” expôs uma estratégia utilizada pelo técnico da renomada tenista Serena Williams.

O episódio narra as inúmeras falhas de Serena durante o jogo. Sabendo disso, o treinador Patrick Mouratoglou decidiu iludi-la apresentando um percentual grande de acertos para promover autoconfiança na atleta. Como resultado, Serena passou a ter sucesso na maioria das ações e, consequentemente, garantiu a sua vitória.

Para mais, uma pesquisa retratou uma estratégia vinda de um treinador de futebol, visando afastar um jogador da equipe que criava problemas indisciplinares. Diante disso, o treinador criou situações comprometedoras, as quais levaram o jogador a pedir transferência para outro clube.

Estas atividades intituladas “white lies” (mentiras bondosas) não devem ser consideradas ações condenáveis, mas sim estratégias para lidar com o contexto social. A finalidade é ganhar o grupo, convencer a comissão técnica e desenvolver o modelo de jogo. Assim, o trabalho do treinador de futebol poderia ter sido afetado pelo jogador indisciplinado, caso ele não tivesse interpretado a paisagem social.

O trabalho do treinador de futebol: boa e má leitura da paisagem social

O autor da obra Guardiola Confidencial, Marti Perarnau, narra uma situação em que Guardiola realiza a boa leitura da paisagem social e apresenta o conhecimento das micropolíticas.

Na época, Rooben e Ribery (líderes do elenco) gostavam do treino isolado sem bola, mas o técnico não era adepto ao método. Em seguida, após vetar esse tipo de treinamento, houve desgastes internos no elenco e, por sua vez, Guardiola cedeu uma das suas ideias para se adaptar ao contexto dos jogadores.

Portanto, é necessário reconhecer os atletas mais influentes do grupo e aqueles que tem um maior poder nas relações sociais. Estes são personagens que podem comprometer os objetivos do programa através do seu alto engajamento no grupo.

Em contrapartida, há treinadores que apresentam uma péssima interpretação da paisagem social. Por exemplo, quando o recém-contratado busca mudar rapidamente o contexto do clube, desmerecendo as relações de poder já existentes nele. Em outras palavras, pede inúmeros reforços para o plantel e, consequentemente, não demonstra confiança nos jogadores chaves da equipe.

Considerando os exemplos mencionados, o entendimento da paisagem social revela ser determinante para o rápido controle do ambiente. A leitura da paisagem social é um processo, não uma fórmula. A previsibilidade leva ao dogmatismo, de modo que resulta no insucesso do treinador inserido em um esporte imprevisível e complexo.

Fonte e Referências

https://www.researchgate.net/publication/233644130_’It’s_All_About_Getting_Respect’_
https://sigarra.up.pt/fadeup/pt/pub_geral.pub_view?pi_pub_base_id=162464

https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/00336297.2009.10483612

https://www.editorarh.pt/manual-de-comportamento-organizacional-e-gestao-6a-edicao

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Confira abaixo um episódio do Podcast sobre o assunto:

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Os jogos reduzidos no futebol e a preparação física

O treinamento no futebol vem evoluindo, caminhado cada vez mais ao encontro da especificidade do jogo. Nesse sentido, os jogos reduzidos no futebol vêm sendo amplamente utilizados para aproximação entre o jogo e o treino.

Com base nisso, estudos já demostraram o aumento do desempenho físico e técnico em equipes que utilizam este método durante suas sessões de treinamento. Contudo, precisamos ter atenção ao caráter estrutural dos jogos reduzidos no futebol. Isso porque, existem diversos fatores que podem influenciar na resposta da demanda física e fisiológica dos atletas durante a realização das atividades. Por exemplo: a dimensão do campo, as regras do jogo, o incentivo verbal por parte da comissão, a duração do trabalho, a composição das equipes, o número de jogadores, entre outros fatores.

Relação entre número de jogadores e a demanda física e fisiológica.

Podemos dividir os jogos reduzidos no futebol em três grupos:

  • Pequenos jogos (1×1, 2×2, 3×3, 4×4);
  • Médios jogos (5×5, 6×6, 7×7, 8×8);
  • Grandes jogos (9×9, 10×10).

Diante disso, os jogos menores apresentam mais respostas fisiológicas (maior carga interna), quando comparado aos grandes jogos. Em outras palavras, valores de concentração de lactato, frequência cardíaca (FC) e PSE são mais elevados neste formato de jogo.

Nessa mesma linha, devido ao fato do trabalho ser realizado em alta frequência cardíaca, o formato de pequenos jogos é uma boa alternativa para o desenvolvimento da capacidade aeróbia dos atletas. Entretanto, jogos no formato de 4×4+goleiro também seriam uma boa alternativa para o treinamento da potência muscular, pois o contato constante com o centro do jogo e as poucas alternativas de passes, obrigam os jogadores a realizarem um grande número de acelerações e desacelerações.

Manipulação das dimensões do campo

As diferentes dimensões de campos nos jogos reduzidos impactam em mudanças nas movimentações dos atletas durante a atividade. As principais mudanças são em relação à velocidade máxima alcançada, distância total percorrida e distância percorrida em alta intensidade. Portanto, há uma relação linear entre o aumento do campo de jogo e o aumento das variáveis citadas.

Esta relação pode ser explicada pelo simples fato que, em campos com dimensões maiores, existe mais espaço para que os atletas percorram grandes distâncias e consigam atingir velocidades máximas. Assim, uma variável muito importante é a área ocupada por cada jogador (m²/jogador). Pois, com a manipulação desta variável, é possível trazer características presentes nos médios e grandes jogos para os pequenos jogos, e vice-versa.

Contudo, para se trabalhar com jogos reduzidos no futebol não basta elaborar exercícios visando apenas uma resposta fisiológica, desconsiderando as demais vertentes presentes no jogo, como a tática, por exemplo. Desse modo, a composição das equipes durante a realização dos jogos exerce uma grande contribuição para unificar estas vertentes, a fim de otimizar o desempenho da equipe durante as sessões de treinamento.

A composição das equipes nos jogos reduzidos no futebol

Como já foi visto em textos anteriores, diferentes posições requerem demandas físicas especificas durante a partida. Dessa forma, é necessário saber se os jogos reduzidos demandam comportamentos específicos em relação ao estatuto posicional durante suas realizações.

Nessa perspectiva, pesquisadores brasileiros, em estudo publicado em 2017, quantificaram a demanda física em função do estatuto posicional em pequenos jogos de futebol. Os resultados demonstraram que os pequenos jogos refletem a especificidade do jogar em função do estatuto posicional em formatos de jogos de 3×3, onde cada equipe era composta por um defensor, um meio campista e um atacante. Acreditamos que este modelo permita uma correlação com as demandas físicas específicas solicitadas aos jogadores pelo jogo. Dessa forma, a composição das equipes nos pequenos jogos demonstra ser uma variável de suma importância para o condicionamento físico de jogadores. No entanto, para atingir maiores níveis de desempenho é necessária a manipulação de outras duas variáveis, são elas: implementação de regras e o incentivo verbal.

Influência da modificação da regra e incentivo verbal nos jogos reduzidos

Desde os primórdios do jogo de futebol, a regra do jogo exerce uma influência direta sobre os comportamentos dos jogadores durante uma partida. Como exemplo, podemos citar o surgimento da regra do impedimento. Nesse sentido, alguns estudos se propuseram a analisar a influência da modificação das regras durante a realização dos jogos em campo reduzido. Algumas variações analisadas foram:

  • Número de toques na bola;
  • 3×3 e 4×4 para: jogo exclusivamente ofensivo, defensivo e misto;
  • Uso da marcação individual em fase defensiva.

Os autores relataram que, a manipulação da regra durante os jogos reduzidos, resulta em mudanças na intensidade dos jogos e nas ações técnicas e táticas. Por exemplo, os jogos sem restrição de números de toques na bola, estimulam os jogadores a realizarem mais duelos. Preservando, assim, a eficiência das ações técnicas. Por outro lado, essa manipulação da regra diminui o número de corridas em alta intensidade e sprints. Em contrapartida, a utilização da marcação individual aumenta cerca de 4,5% a FC durante a realização da atividade. O encorajamento verbal dos treinadores durante a realização dos jogos reduzidos também exerce uma influência no aumento da intensidade do jogo.

Modificações nos jogos reduzidos

Portanto, esses são apenas alguns exemplos de manipulações que podem ser feitas. Porém, podemos aplicar uma infinidade de modificações durante a realização dos jogos em campo reduzido, a fim de obter uma maior resposta física e fisiológica por parte dos atletas. A presença dos goleiros, presença de mini-gols, jogos contínuos e intermitentes são outros exemplos de manipulações nos mini-jogos.

Assim, conseguimos constatar que existem várias manipulações referentes a estrutura dos jogos em campo reduzidos, acarretando diferentes respostas físicas e fisiológicas. Percebemos que, quanto mais o jogo se aproxima do formato oficial, maiores serão as movimentações e menor será a intensidade fisiológica presente na atividade.

Treinamento aeróbio por meio dos jogos reduzidos

A capacidade aeróbia se resume basicamente em captar, transportar e metabolizar o oxigênio de modo a fornecer energia ao organismo, e superar a fadiga em determinado exercício ou atividade física. O trabalho aeróbio promove uma melhora do sistema respiratório e cardiovascular. Assim, devemos priorizar a montagem de exercícios que nos possibilite manter os atletas sobre frequência cardíaca mais elevadas durante maior tempo.

Nesse sentido, jogos reduzidos de 4 contra 4; e 5 contra 5 jogadores em uma área em torno de 150m² por jogador, parece ser uma boa opção para o treinamento aeróbio. Isso porque o contato constante com o centro do jogo, ou seja, com o local próximo à bola, permitirá que os jogadores realizem a atividade com maior intensidade física e fisiológica. 

Outros diferentes métodos de treinamento são também aplicado para o desenvolvimento do metabolismo aeróbio. Como exemplo, um estudo realizado pelos pesquisadores Casamichana, Castellano e Dallal em 2013, afirmou que os jogos contínuos seriam mais eficientes para esta finalidade, dado que, devido à duração prolongada, o desgaste físico, frequência cardíaca e Percepção Subjetiva de Esforço (PSE) demonstrariam valores mais elevados.

Além do formato dos jogos e dos métodos de treinamento, ainda devemos considerar que as regras inclusas nos jogos reduzidos no futebol é outro fator relevante. A restrição do número de toques na bola, por exemplo, pode induzir a uma maior frequência cardíaca durante a realização da atividade; assim como a restrição da presença de goleiros e da utilização de mini-gols.

Treinamento da potência através dos jogos reduzidos

A potência é a capacidade do sistema neuromuscular de alcançar altos níveis de força no menor tempo possível. Sendo assim, para conseguirmos desenvolver esta capacidade através dos jogos reduzidos no futebol, devemos dar ênfase em comportamentos que exijam maior tensão muscular durante sua realização. Por exemplo: mudanças de direções, acelerações e frenagens.

Tendo isso em vista, formatos de jogos reduzidos menores são mais indicados para o desenvolvimento da potência. Como os jogos de 2×2, 3×3 até 4×4 com menos de 140 metros quadrados por jogador. Além disto, deve-se priorizar jogos descontínuos, ou seja, menor tempo de atividade e um maior intervalo entre as séries de exercícios.

Utilizar a presença de mini gols, ou até mesmo de goleiros, como ferramentas para estimular o aumento do número de ações de força/tensão durante a atividade é uma opção. Pois, o objetivo de atacar e defender uma meta, motivam a execução destes comportamentos.

Treinamento da velocidade através dos jogos reduzidos

ara treinar velocidade por meio dos jogos reduzidos, devemos nos ater a uma variável fundamental, a metragem quadrada por jogador. Sabemos que nos grandes jogos a intensidade fisiológica é menor em comparação aos pequenos jogos. Assim sendo, os médios e grandes jogos tornam-se alternativas interessantes para podermos desenvolver esta capacidade. Em 2016 pesquisadores europeus constataram que, grandes jogos de cerca de 8 contra 8 mais goleiros, proporcionaram aos atletas realizarem mais sprints durante a realização da atividade.

As medidas oficiais de um campo de futebol profissional padronizadas pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) são de 105mX68m, isto resulta em uma área total de 324m² coberta por cada jogador. Portanto, para enfatizarmos a velocidade nos jogos reduzidos, devemos elaborar trabalhos com uma área coberta maior que 150m² por jogador. Isso porque deve haver espaço para atingir maiores velocidades no jogo.

Ainda podemos utilizar a presença de goleiros nestas atividades, a montagem de campos verticais, e trabalhos envolvendo jogos de transição, ultrapassagem e progressões.             

Afinal, como devemos treinar os jogos reduzidos?

Por fim, estes dois textos nos mostram o quão complexo é o método de treinamento por meio dos jogos reduzidos no futebol. Conhecemos as diversas variáveis envolvidas nesta metodologia e como manipulá-las para direcionarmos o treinamento ao alvo desejado.

Com uma montagem adequada, considerando o número de jogadores, a metragem quadrada coberta por cada atleta, a densidade do trabalho, a montagem das equipes, e as regras inclusas no exercício; será mais fácil ser assertivo em suas sessões de treinamento.

É importante ressaltar que os jogos reduzidos, apesar de apresentarem uma ótima correlação com o jogo, não necessariamente são a única e exclusiva metodologia de treinamento. Ou seja, eles podem ser conjugados com trabalhos de caráter analítico.

Cabe a cada profissional extrair o melhor de cada ferramenta, adaptando-se à realidade em que está inserido, para assim, atingir os melhores resultados possíveis.

Fontes e Referências

Futebol Sistêmico.

https://journals.lww.com/nsca-jscr/Fulltext/2012/04000/Effects_of_the_Number_of_Players_and_Game_Type.13.aspx

https://www.researchgate.net/publication/6373696_Factors_influencing_physiological_responses_to_small-sided_games

https://journals.lww.com/nsca-jscr/Fulltext/2014/12000/Small_Sided_Games_in_Team_Sports_Training__A_Brief.36.aspx

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Como desenvolver jogadores criativos?

A criatividade é uma palavra recorrente no futebol e muitas vezes está relacionada ao ataque, com jogadas plásticas e gols bonitos. Jogadores criativos embelezam o esporte. Mas afinal, existe uma maneira de desenvolver jogadores criativos? Essa pergunta nos leva a outro questionamento: a criatividade é inata ou adquirida? Primeiramente, para responder essas perguntas é preciso entender o que é criatividade.

O que é criatividade?

Pode-se compreender a criatividade como a capacidade de gerar respostas inesperadas para uma situação-problema. Assim, jogadores criativos são aqueles que conseguem ter uma tomada de decisão surpreendente e efetiva. Mas como tomar decisões mais efetivas no campo de jogo?

Uma tomada de decisão efetiva parte de alguns pontos básicos: analisar a situação, decidir uma ação e executá-la. Em outras palavras, mais precisamente nas palavras do treinador Jorge Jesus:

“A primeira qualidade do jogador é saber pensar o jogo. A segunda é saber decidir. E, só na terceira, vem a execução. Se não faz bem a primeira e a segunda, não é Jesus que vai te fazer executar. Primeiro tem que pensar o jogo, entender o jogo. Depois tem que saber decidir em quem passar. E depois é que vem a execução”.

A boa tomada de decisão refere-se à escolha de uma ação técnica/tática que seja benéfica para o time. De modo similar ao que falou Jorge Jesus, Vanderlei Luxemburgo criou polêmica ao dizer: “Eu não posso entrar em campo e decidir por eles”, referindo-se aos jogadores. Ambas as falas revelam a autonomia que jogadores tem em campo para tomar determinadas decisões.

A criatividade na tomada de decisão

Conforme dito anteriormente, a criatividade refere-se à capacidade de resolução de problemas através de respostas inesperadas. No futebol é comum que gestos técnicos como o drible, passes que “quebram” linhas, fintas que confundam a marcação e finalizações acrobáticas sejam consideradas ações criativas. Nesse sentido, existe uma tendência em classificar mais ações ofensivas do que defensivas como criativas.

Relacionando a tomada de decisão e a criatividade, podemos compreender que, para tomar uma decisão criativa, é necessário pensar de maneira divergente. Durante todo o tempo de jogo, inúmeras situações forçam os jogadores a decidirem sobre várias opções disponíveis. Ou seja, existem milhares de oportunidades de tomar uma decisão criativa dentro de uma partida. Porém, como treinar para tomar uma decisão inesperada?

Como desenvolver jogadores criativos?

A criatividade, para muitos, é algo inato. Entretanto, a literatura sobre o tema revela que a criatividade pode ser, sim, desenvolvida. Segundo o conceito trazido neste texto, a criatividade é uma ação que busca respostas incomuns. Em outras palavras, um atleta pode aprender a avaliar rapidamente as circunstâncias e tomar uma decisão menos óbvia. Quanto mais conhecimento de jogo (processual, pelo menos) e velocidade de raciocínio o jogador possuir, mais opções de ação ele terá.

Outro aspecto importante que devemos considerar é a capacidade de percepção do jogador. Durante a partida, inúmeros estímulos estão presentes disputando a atenção do atleta, por exemplo: a bola, os jogadores do próprio time, os adversários, as vozes do técnico e assim por diante. Diante desses estímulos o jogador pode estar com o foco de atenção amplo ou estreito, observando muitos ou poucos indicadores em simultâneo. Então, não basta ter conhecimento de jogo e rapidez na decisão se não houver uma seleção adequada dos estímulos importantes naquele momento.

Desenvolvendo o conhecimento de jogo

Para desenvolver a velocidade na tomada de decisão são necessários treinamentos com algumas especificidades, bem como que, para desenvolver o conhecimento de jogo é necessário treinamento. A diferença, todavia, é na forma de condução dos treinamentos. Alguns treinadores comandam treinos onde eles apenas ordenam os jogadores a executar ações ou cumprir objetivos. Faltando, assim, explicação aos jogadores sobre o treinamento e suas funções.

De maneira análoga, existem treinadores que explicam demais o treino. Como resultado, em ambas situações mencionadas, os atletas deixam de pensar o jogo por conta própria. Outro problema comum são os treinadores que “narram” o jogo, dizendo as ações que cada jogador com a bola tem que fazer. Isso condiciona os jogadores a serem meros repetidores.

Diante disso, pode-se compreender que, para terem expertise (especialidade) no futebol, os jogadores têm de ser ensinados a avaliar o contexto e escolher suas ações. Isso, por sua vez, se dá através do ensino tático, ressaltando a importância de uma boa tomada de decisão. Entretanto, a decisão criativa nem sempre condiz com as ideias do modelo de jogo. Em alguns momentos os atletas esperam que a jogada tenha um desfecho, porém o jogador criativo faz algo diferente. Por isso é preciso aprender a pensar o jogo, ratificando as palavras de Jorge Jesus.

O treinador e os jogadores criativos

Durante os treinamentos é essencial que o treinador explique algumas funções da atividade, bem como os objetivos, porém deixe algumas informações em aberto. Desse modo, os jogadores terão de pensar em como agir para chegar ao objetivo, desenvolvendo estratégias e exercitando o pensamento crítico. Algo similar ao que o treinador José Mourinho desenvolveu e pode ser melhor compreendido no livro “Mourinho: a descoberta guiada”.

Em conclusão, podemos indicar que o desenvolvimento da criatividade passa por uma ampliação da expertise do jogador, fornecendo-lhe maior capacidade de resposta aos problemas de jogo. Ou seja, quanto maior capacidade de resposta, menos obvio será seu comportamento e mais criativa poderá ser sua ação em campo.

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Do futebol de rua ao treino estruturado

Quando falamos de futebol de rua, o que vem à nossa mente são os chapéus do Ronaldinho Gaúcho, as canetas do Ronaldo Fenômeno, e atualmente as lambretas do Neymar. Mas além de jogar na rua durante a infância, o que mais esses brasileiros têm em comum?

Sim, o pensamento rápido, a imprevisibilidade. Mas como eles fazem isso com tanta facilidade e com tanta maestria?

Uma pesquisa mostrou que a quantidade de horas envolvidas em jogos é um dos fatores no desenvolvimento de habilidades e da tomada de decisão em jogadores de futebol. Logo, a grande exposição às atividades do jogo estão relacionadas ao excelente repertório cognitivo-emocional e motor do indivíduo.

Diante disso, durante a infância destes talentosos atletas, era comum que as crianças desfrutassem do futebol nas ruas. A princípio, as árvores se tornavam traves, as calçadas limitavam o campo e o pequeno espaço exigia o raciocínio acelerado.

O futebol de rua era, e ainda é, um ambiente de imprevisibilidade e educação, pois existem elementos de não linearidade que são capturados para aprendizagem. Porém, essa cultura brasileira vem diminuindo cada vez mais, já que a tecnologia evolui exponencialmente, e consequentemente, os tablets vêm ocupando o lugar das bolas.

Então é por isso que as pessoas dizem que os brasileiros estão perdendo a sua essência? Basta levar a criançada para jogar nas ruas, certo?

A questão não é só o espaço entre as calçadas, mas sim a imprevisibilidade que a rua gera por conta da alta variabilidade no jogo. Sendo assim, como os treinadores podem transferir a rua para as sessões de treino?

Pedagogia Não-Linear

Partindo do pressuposto de que o jogo de futebol é um sistema complexo, dinâmico e não linear, em algum momento haverá instabilidade nas interações entre os elementos do jogo. E no treino não é diferente. Em outras palavras, as equipes oscilam entre ordem e desordem, representando assim, a teoria do caos no futebol.

Portanto, cabe ao treinador preparar o jogador para o desconhecido, guiando-os para a melhor escolha do que fazer e como fazer (descoberta guiada). Dessa forma, a Pedagogia Não-linear fornece princípios pedagógicos, que auxiliarão os treinadores:

  • Princípio da Representatividade: Simular o ambiente de jogo, pois trata-se deum ambiente caótico.
  • Acoplamento Informação-Ação: Proporcionar várias opções para o atletatomar a decisão mais certeira em determinados contextos;
  • Princípio da Aprendizagem Exploratória: Possibilitar ao atleta, a capacidade de modificar um gesto, sem perder a sua funcionalidade. Isto é, ao invés de prescrever um movimento ideal, deixe-o se auto organizar para solucionar o problema (abordagem ecológica).
  • Manipulação de Constrangimentos: Manejar os elementos do jogo paradesafiar as ações e as tomadas de decisões dos praticantes. Por exemplo: alterar o tamanho do campo, diminuir ou aumentar o número de jogadores, modificar as balizas etc.

Através destes princípios, o treinador aumenta a representatividade do jogo, insere a variabilidade funcional e simplifica a tarefa para aumentar o acoplamento informação-ação. Ou seja, a PNL nada mais é do que uma maneira de formar jogadores criativos e autônomos em um contexto mais estruturado.

O futebol de rua como Jogos Reduzidos?

Uma alternativa para os treinadores é o uso de Jogos Reduzidos, de modo a gerar o fractal do jogo. Mas será que essas atividades podem ser tarefas representativas?

João Machado, no episódio 48 do Podcast Ciência da Bola diz que “depende”. Para criar uma atividade representativa, é prudente respeitar as características e o nível dos jogadores. Se a criança não tem percepção-cognitiva o suficiente para aquela tarefa, não haverá aprendizagem.

Além disso, é importante considerar os princípios do modelo de jogo, e que a intenção da tarefa seja evidente.

Por exemplo, se o meu objetivo é proporcionar autonomia para os jogadores escolherem a melhor decisão, enquanto treinador, devo oferecer um ambiente com diversas opções de escolhas. Pensando nisso, um Jogo Reduzido de posse de bola com 2vs2 é viável neste contexto?

Acredito que não, uma vez que, com essa manipulação, o atleta terá poucas opções de escolha: 1) conduzir, 2) passar a bola para o único colega 3) driblar o adversário.

Convém destacar também que, ao manipular excessivamente a tarefa, o jogador perde a capacidade de se expressar (ludicidade). Elemento presente no futebol de rua e é primordial para a criatividade do indivíduo.

Portanto, a Pedagogia Não-Linear visa manter os elementos do futebol de rua para os atletas solucionarem o excesso de problemas táticos que o jogo caótico promove.

Logo, enquanto treinador, penso que a chegada da ciência aos treinamentos é de grande valia para o esporte. No entanto, devemos ter a consciência de que o futebol também é arte. Ou seja, o jogo de qualidade tem demasiado jogo para ser ciência, mas é demasiado científico para ser só jogo.

Contato do Autor: @g_tadashi

Fontes e Referências:

Tomada de decisão no desporto.

Pedagogia não-linear no futebol: análise do processo de criação de tarefas representativas

Confira um episódio do Podcast Ciência da Bola que fala sobre o assunto:

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O estilo de liderança dos técnicos de futebol

No futebol são bem visíveis as diferenças entre os trabalhos dos treinadores. Para além das variações táticas e de modelo de jogo, existe um ponto extremamente importante: o estilo de liderança. Em outras palavras, a forma e o estilo de liderança dos técnicos de futebol e como ele lidera, pode influenciar diretamente no rendimento da equipe.

Enquanto alguns técnicos de futebol são mais tidos como “linha-dura”, outros são comumente chamados de “paizão”. Sendo assim, como colocar isso em termos de liderança?

O que é Liderança?

Liderança é “o processo pelo qual um indivíduo influencia um grupo de indivíduos para o alcance de uma meta comum”. Nesse sentido, cada técnico de futebol influencia seu grupo de atletas à sua maneira. Seja um treinador como Tiago Nunes, conhecido por sua forte cobrança sobre os atletas ou Fernando Diniz, conhecido por ter uma relação próxima com jogadores.

Atualmente existem algumas teorias distintas sobre a liderança. De maneira didática, podemos falar do estilo: autocrático e seus derivados, além do estilo democrático e suas variantes. Treinadores autocráticos tendem a resolver problemas de maneira individual, enquanto treinadores democráticos ou consultivos tendem a consultar o grupo no processo de tomada de decisão. Vale ressaltar que, embora existam essas divisões didáticas, um treinador não precisa agir inteiramente de uma maneira ou de outra.

Um estudo publicado em 2009 analisou o perfil de liderança dos treinadores das categorias de base do futebol brasileiro. Esse estudo concluiu que os treinadores participantes se percebiam mais autocráticos e mais preocupados com o aspecto de treino-instrução de suas equipes. Conforme esse estudo, já se percebe que, desde a base os treinadores costumam apresentar um estilo de liderança similar.

Habilidades de liderança dos técnicos de futebol

Novos técnicos de futebol surgiram nos últimos anos, sobretudo após o vexame da Copa do Mundo de 2014. Curiosamente, um dos personagens dessa renovação de técnicos de futebol é Fernando Diniz. Relativamente inovador em alguns conceitos táticos no futebol brasileiro, Diniz formou-se em Psicologia e falou justamente sobre liderança em seu TCC. Em suas palavras, “O técnico de futebol é o líder e é ele quem determina o destino do grupo. A característica mais importante que não pode faltar nesse profissional é a credibilidade, sendo que possuir tal qualidade não implica em ser um líder. Mas para liderar é essencial ter credibilidade”.

Além do mais, Diniz afirmou ainda que “liderar uma equipe de futebol é uma tarefa que exige, de seu comandante, postura e sensibilidade. Existem características em um líder que são importantes, como carisma, mas não é o que determina se este líder fará com que seus liderados o sigam…. É fundamental ao técnico: conhecer as pessoas e sua natureza humana; obter um relacionamento interpessoal com uma boa comunicação; liderança; motivação; conhecimento dos atletas e suas necessidades, que serão seus aprendizes diretos”.

Liderança, motivação e comunicação estão sempre relacionadas no esporte.  A maneira como se lida com um grupo reflete diretamente no desempenho da equipe em campo. Portanto, técnicos de futebol devem desenvolver algumas habilidades psicológicas básicas, além de buscar conhecimento na área. Isso porque, além de funções técnicas, o técnico de futebol também pode ser, analogamente, professor, motivador, juiz, administrador, relações públicas, conselheiro, amigo, “pai”, político, etc. E isso pode ser observado, sobretudo na realidade do futebol brasileiro, onde há poucos profissionais de áreas menos ligadas diretamente ao campo de jogo.

Então, qual é o melhor estilo de liderança no futebol?

Assim como não existe o melhor modelo de jogo ou a melhor estratégia, não existe certo ou errado absoluto quando se trata de estilo de liderança dos técnicos de futebol. A eficácia do estilo de liderança de um treinador deriva de sua adaptação à situação. De acordo com o contexto um ou outro tipo de liderança será mais adequado. A verdadeira liderança no esporte depende das qualidades do líder (o treinador, no caso), do seu estilo de liderança, dos fatores situacionais e das características dos seguidores (os jogadores). Contudo, é a forma como esses quatro fatores interagem que realmente determina o que torna um líder mais eficiente.

Fontes e Referências:

  • Liderazgo en juego: dentro y fuera del campo” de Claudia Alicia Rivas e Alejandra Florean.
  • Leadership: theory and practice” de Peter G. Northouse.
  • Análise do perfil de liderança dos treinadores das categorias de base do futebol brasileiro” de Israel Teoldo, Dietmar Samulski e Varley Teoldo.

Autor: Matheus Padilha Abrantes Reis
matheuspadilhaar@gmail.com
@28padilha

Confira um episódio do Podcast Ciência da Bola que fala sobre o assunto: