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Como fazer uma análise tática do adversário no Futsal

Devo lembrar a você leitor que recentemente publicamos um texto aqui no blog sobre futebol denominado: como criar um relatório de análise tática do adversário. Portanto, hoje vamos falar sobre como realizamos uma análise tática do adversário no Futsal?

Análise tática do adversário no futsal

Primeiramente, podemos dizer que sim, o exemplo de relatório do texto citado pode ser considerado para o Futsal. Contudo, devemos nos atentar às especificidades do Futsal perante o Futebol.

Dessa maneira, recomendamos vivamente a leitura do texto: quais as principais diferenças técnicas entre o Futsal e Futebol. Desse modo, acreditamos que a compreensão do conteúdo citado poderá auxiliar na adaptação na construção do relatório de análise tática do adversário.

Do mesmo modo, o livro de Rui Rodrigues denominado “Treinar Futsal” propõe algumas perguntas para cada fase do jogo (defesa e ataque) de modo a contemplar uma ficha de análise tática do adversário no futsal.

Ataque

Neste sentido, separamos alguns tópicos que devemos prestar atenção ao analisar o jogo no fase de ataque.

  • O adversário joga organizado, faz leitura de jogo?
  • O adversário prefere o ataque rápido ou pausado?
  • Qual a zona da quadra preferida para o adversário atacar / por onde ataca mais?
  • Jogam em contra-ataque? Quando? Qual tipo?
  • O que há de melhor no ataque adversário?
  • O que há de pior no ataque adversário?
  • Contra qual defesa o ataque é mais eficiente?
  • Qual o jogador municiador e organizador do ataque?
  • Quem toma a responsabilidade na finalização ou concretização da ação de ataque?
  • Que tipo de defesa pode ser eficaz contra este adversário?

Defesa

Portanto, aqui, separamos alguns tópicos que devemos prestar atenção ao analisar o jogo no fase de defesa.

  • Quais os sistemas defensivos que a equipe aplica?
  • Qual a melhor defesa e qual a defesa que joga mais tempo?
  • Qual a pressão na bola e onde começa a pressão?
  • Quais linhas de passe o adversário tenta fechar?
  • A equipe joga em pressão? Qual tipo de pressão?
  • Qual a qualidade da transição defensiva?
  • O que há de melhor na defesa do adversário?
  • O que é pior na defesa do adversário?
  • Há jogadores lentos na defesa?
  • Qual ataque será eficiente contra eles?

Textos complementares para análise tática no futsal

Além disso, é importante destacarmos outras produções sobre análises de desempenho e tática presentes aqui no blog:

Assim, os textos mencionados nos dão uma excelente base para introduzir conceitualmente o papel do analista de desempenho de uma equipe. Portanto, considerando as devidas especificidades entre os esportes, o conteúdo exposto é de suma importância para quem se interessa pela área de análise de desempenho no Futsal.

Por fim, destacamos que em diversas competições, tanto profissionais como amadoras, o nível dos atletas se assemelham. Desse modo, qualquer informação extra dos adversários é de grande valia para uma equipe bem organizada. Além disso, destacamos a importância do analista de desempenho neste contexto, dado que um modelo de relatório de análise tática bem organizado pode influenciar positivamente nas pretensões da equipe para a temporada.

Contatos do autor:
E-mail: tassiosardinha@gmail.com
Instagram: @tsardinha1

Confira abaixo um episódio do Podcast sobre o assunto:

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Como criar um relatório de análise tática do adversário

O que é um relatório de análise tática do adversário no futebol?

De antemão, para aqueles que não sabem, o relatório de análise tática do adversário é normalmente criado pelo analista de desempenho. Assim, ele coloca algumas características do adversário que acha pertinente. Posteriormente, esse relatório será entregue para o técnico, o qual começará a pensar nas estratégias que deve adotar para vencer o próximo confronto.

Esse relatório, normalmente, possui um padrão. Nele é colocado, por exemplo, a escalação do adversário, como ele se organiza ofensivamente e defensivamente, como faz as transições ofensivas e defensivas, além das bolas paradas, facilitando o trabalho da comissão técnica, a qual conhecerá melhor o próximo adversário.

Pontos essenciais em um relatório de análise tática do adversário

Escalação do adversário

Primeiramente, é interessante começar o relatório com a escalação do adversário. Faça a apresentação em forma de campo e com a foto de cada jogador. Dessa forma, a visualização fica facilitada e os atletas já começam a observar quais adversários cairão na sua zona do campo.

Além do campo com a foto dos jogadores, você pode colocar outras informações, por exemplo: quais jogadores mais são substituídos, quais tem mais probabilidade de entrar, número do jogador, altura, pé dominante, etc… Isso ajudará os atletas a gravar algumas características dos seus oponentes diretos no campo.

Exemplo de escalação apresentada em um relatório. Fonte: criado pelo autor.

Organização Ofensiva

Doravante, serão citados os momentos e fases do jogo de futebol e o que podemos identificar em cada um deles. Pois bem, caso ainda não tenha conhecimento sobre cada um deles, aconselhamos a leitura deste texto.

Nesse momento o relatório começa a se encaminhar para como a equipe pratica o futebol. Desse modo, nesse tópico é interessante colocarmos as maneiras que o adversário constrói seus ataques. Para facilitar a compreensão, podemos dividir essa parte em 3 itens:

  • Saída de bola ou 1º terço;
  • Fase de construção ou 2º terço;
  • Fase de criação e finalização ou 3º terço.

É de suma importância, em cada subdivisão do relatório a partir de agora, destacarmos qual o jogador principal naquele momento ou fase. Dessa forma, prendemos a atenção tanto da comissão técnica quanto dos jogadores para aquilo e/ou aquele que realmente é um diferencial.

Além disso, seu relatório de análise tática do adversário no futebol deve ser de fácil entendimento, em outras palavras, não polua demais os slides/PDF’s, coloque imagens claras e textos diretos e simples. Isso fará com que todos compreendam o que você quer passar.

Transição Defensiva

Aqui exploraremos como a equipe se porta após perder a bola. Iremos identificar se o adversário opta por pressionar a bola após perdê-la, com quantos jogadores faz isso, em quais regiões mais consegue roubá-la, ou se prefere recuar os jogadores a fim de se organizar defensivamente, etc. Identifique se há gatilhos de pressão e quais os atletas são importantes neste momento.

Organização Defensiva

Neste tópico iremos analisar como a equipe adversário se organiza defensivamente.

Antes de mais nada, podemos colocar informações como: qual o esquema de jogo mais utilizado e suas variações, onde mais recuperam bola, para qual região do campo o adversário gosta de lhe atrair, entre outras. De modo a facilitar o entendimento, podemos dividir este tópico em outros 3 itens:

  • Pressão na saída de bola;
  • Linha média;
  • Bloco baixo.

Em síntese, podemos dar mais detalhes da organização defensiva em cada um desses 3 “submomentos”.

Transição Ofensiva

Este é o último tópico de análise do adversário com bola rolando. Podemos verificar quais os mecanismos que o adversário usa para transitar em campo após recuperar a bola, por exemplo: ele retira a bola da pressão ou busca progredir em campo no local que recuperou a bola? Há variação de corredor? Qual é o jogador chave para este momento? Há muitas outras perguntas quem podem ser respondidas, de modo a achar soluções para o jogo. Enfim, use sua criatividade para achar detalhes que façam a diferença para sua equipe.

Bola parada Ofensiva

Podemos listar algumas bolas paradas ofensivas do adversário, como:

  • Escanteio;
  • Tiro de meta;
  • Pênalti;
  • Laterais
  • Faltas laterais;
  • Faltas frontais.

Assim, verifique os padrões de cobranças e quais são mais eficazes por parte do adversário. Identifique também quem são os cobradores e quem é o maior perigo na bola aérea.

Bola parada defensiva

Posteriormente, após vermos como o adversário ataca nas bolas paradas, iremos colocar no relatório como ele se defende delas. Podemos utilizar a mesma listagem acima. Então, é interessante vermos o estilo de marcação que usam nelas, sendo elas:

  • Por zona;
  • Individual;
  • Misto.

Em suma, podemos ver quais os pontos frágeis da defesa e tentar nos aproveitar deles.

Estatística no relatório

Juntamente às informações do adversário que foram colocadas no relatório, é interessante adicionar algumas estatísticas, para validar aquilo que você quis mostrar. No entanto, a estatística por si só, colocada de maneira solta, pode confundir os atletas e comissão técnica e, muitas vezes, ela não dirá nada de importante. Isto é, é fundamental que você dê sentido a ela, faça-a ter valor. Afinal, como diz Albert Einstein: “nem tudo o que pode ser contado conta, e nem tudo o que conta pode ser contado.”

Portanto, depois de tudo que vimos no texto até agora, sabemos que o relatório do adversário no futebol é essencial para a comissão técnica e jogadores se prepararem de forma rápida para o próximo confronto. Além da velocidade na entrega da informação, o relatório traz pontos chaves do adversário, isto é, mostra pontos fortes e fracos de quem enfrentaremos.

Lembrando que este é só um exemplo de relatório de análise tática do adversário no futebol. Bem como, existem outras formas de fazê-lo. Poratnto, você pode usar este modelo e adequar a sua realidade, vendo o que é mais eficaz para o seu time.

Confira abaixo um episódio do Podcast sobre o assunto:

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Por que o Futsal ainda não é um Esporte Olímpico?

O futsal é, sem dúvidas, um dos esportes mais populares no Brasil e em todo o mundo. No entanto, muitos fãs sempre se perguntaram por que esse esporte, tão praticado e amado, não faz parte das Olimpíadas? Neste texto, vamos explicar alguns pontos importantes que podem te ajudar a entender melhor essa decisão do Comitê Olímpico Internacional (COI) e discutiremos se há perspectivas para o futsal se tornar um esporte olímpico no futuro.

Quais os critérios para um esporte se tornar olímpico? 

É importante ressaltar que a inclusão de um esporte nas Olimpíadas é uma decisão do COI, entidade essa que é composta por 206 Comitês Olímpicos Nacionais (CONs). Embora não existam critérios definitivos, o COI segue uma certa linha de raciocínio ao considerar a inclusão de um esporte no programa olímpico. Alguns dos critérios usados pelo COI incluem:

Organização internacional

Para o COI, é importante que o esporte tenha uma federação que supervisione a modalidade em todo o mundo, estabelecendo regras e organizando competições. No entanto, também é necessário que haja um acordo sólido entre o COI e a federação desse esporte em questão, para evitar conflitos de interesses.

Tradição

O COI valoriza a tradição do esporte em escala global. Embora o futsal tenha surgido em meados dos anos 30 no Uruguai, apenas em 1980 foi consolidado como um esporte amplamente conhecido ao redor do mundo. Portanto, aos olhos do comitê, o futsal não possui a mesma relevância histórica que outros esportes, como o atletismo e o futebol, por exemplo.

Proibições

Esportes que necessitam de propulsão mecânica são proibidos dos jogos olímpicos. Então, o automobilismo, apesar de ser considerado um esporte, não está dentro dos critérios para se participar das competições.

Acontece o mesmo com os dados “esportes mentais”, como o xadrez por exemplo. 

Conflitos de interesse

Um dos maiores obstáculos para o futsal se tornar um esporte olímpico é o fato de que a FIFA não abre mão de que a Copa do Mundo de Futsal, que ocorre no mesmo ano das Olimpíadas, seja realizada. Portanto, a FIFA acredita que a participação das seleções de futsal nas Olimpíadas em julho interfere no Mundial, que acontece no final de agosto, e, por essa razão, não faz esforços para incluir o esporte nas Olimpíadas. Para o COI, não interessa a inclusão do esporte, pois acreditam que isso poderia aumentar a visibilidade de um esporte organizado pela FIFA, e, dessa forma, a negociação não avança.

Isso não ocorre com o futebol, devido à sua ampla popularidade em comparação ao futsal, e a FIFA concorda em permitir apenas a participação de seleções sub-23, com a inclusão de 2 jogadores com maior idade.

Perspectivas para o Futuro

Apesar de todos os obstáculos, o futsal vem ganhando cada vez mais espaço e investimento ao redor do mundo. Em 2018, o futsal fez parte das Olimpíadas da Juventude, competição essa que é tratada como uma forma do COI testar um novo esporte em seu quadro de modalidades. Outra coisa que pode dar mais esperanças aos amantes do futsal é o futuro incerto do futebol no quadro olímpico. Portanto, o Comitê Olímpico Internacional já anunciou novas modalidades para as Olimpíadas de 2028, que acontecerão em Los Angeles, e o futsal não foi incluído. São elas: Flag Football, Squash, Críquete e Lacrosse.

Embora o futsal ainda não seja um esporte olímpico, sua história e popularidade continuam a crescer ao redor do mundo e a modalidade está a cada dia mais próxima de aparecer nas próximas edições das Olimpíadas. 

Por fim, apesar dos conflitos de interesses e criterios do COI impediram que o futsal já estivesse no quadro olimpico, há cada dia mais esperanças que essa situação possa ser revertida. A história e popularidade do futsal continuam a crescer ao redor do mundo e a modalidade está a cada dia mais próxima de aparecer nas próximas edições das Olimpíadas. 

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A educação física escolar e o futsal

A educação física escolar é pautada na construção do conhecimento científico, visando promover um estilo de vida saudável com reflexões acerca da cultura corporal (lutas, ginástica, esporte, dança, jogos, etc). Desse modo, dentre os conteúdos abordados, o futsal é um dos que mais sobressai, pela facilidade ao acesso de sua prática na escola.

Se tratando de futsal, sabemos que há diferenças das suas abordagens nas escolas para o ensino em clubes e/ou escolinhas. No esporte de rendimento, o que prevalece são os resultados e o melhor desempenho, caracterizando um treinamento tático, técnico, físico e psicológico. Já o esporte educacional visa a formação do indivíduo em sua totalidade cognitiva, sócio-afetivo e motor, promovendo criticidade e autonomia sobre os valores de cooperação e união, por exemplo.

Entretanto, há uma visão errônea de que, nas aulas de educação física, o futsal se caracteriza por: meninos “correndo atrás da bola”, enquanto as meninas permanecem no voleibol.

Como o professor (a) pode planejar o conteúdo de futsal?

De antemão, o professor precisa ter claro os objetivos de ensino sobre a modalidade. Diagnosticar a realidade das turmas, planejar, avaliar e construir as características da prática do futsal na escola. Para isso é necessário respondermos algumas perguntas:

  • Quais seriam estas características?
  • Como os alunos aprendem as modalidades?
  • Quais temas podem ser introduzidos nas discussões em aula?

Todas essas respostas dependem da metodologia de ensino proposta pelo professor(a).

Os jogos recreativos, cooperativos, adaptados conforme a faixa etária e a realidade dos alunos favorecem a compreensão da modalidade específica, permitindo a apropriação do conhecimento sobre os nomes das posições e funções de cada uma. Vivenciar e saber a função do goleiro, alas direito e esquerdo, fixos e pivôs, permite compreender as múltiplas funções fundamentais para o desempenho do jogo.

Do mesmo modo, é necessária uma abordagem pedagógica em que os alunos(as) identifiquem no futsal, atitudes de integração, respeito, saber ganhar e saber perder. Bem como, possibilitar uma modalidade para todos praticarem, inclusive meninas, que muitas vezes são excluídas desta modalidade.

Dessa forma, é possível criar um ambiente de socialização e reflexões sobre esta exclusão citada acima, a qual se torna recorrente nas modalidades coletivas. Alguns questionamentos podem ser levantados, como: todos jogam futsal? Meninos e meninas podem jogar juntos? Pequenos jogos mistos, leituras sobre o tema e modificações de regras adaptadas para a turma podem auxiliar na construção de um novo pensamento sobre a prática.

E qual o objetivo da Educação Física escolar?

A educação física escolar deve formar atletas ou cidadãos críticos que apreciem a modalidade e tenham uma prática regular?

O processo escolar deve prevalecer a conscientização do valor educativo do esporte, refletindo suas ações de exclusão, por exemplo, na qual somente quem tem talento o pratica, ou que o futsal não é para meninas. No entanto, também cabe ao profissional incentivar os talentos e encaminhá-los para clubes e/ou escolinhas. Em outras palavras, a escola e o professor(a) são mediadores na descoberta de talentos neste espaço.  

Contudo, nas aulas práticas é importante ressaltarmos a coragem e a confiança do aluno que está jogando, visto que isso reforçá a segurança do mesmo ao executar a atividade. Além disso, o planejamento deve ter uma interação entre os comportamentos: cognitivo, afetivo e psicomotor. Isso porque, durante a prática o aluno utiliza os movimentos específicos e a técnica da modalidade (psicomotor), além de que o jogo necessita de resolução de problemas (cognitivo) e interação com os colegas, arbitragem, adversários, sobressaindo o respeito (sócio afetivo).  

Em suma, o professor deve ter definido os objetivos e qual a metodologia mais adequada para apropriação do conhecimento que irá utilizar. Portanto, as aulas devem ser organizadas conforme a realidade social, faixa etária e desenvolvimento cognitivo da turma. Vivências práticas contextualizadas e reflexões sobre gênero são importantes no processo ensino-aprendizagem.

Fontes e Referências

Coletivo de autores

Futsal & Futebol: bases metodológicas

Contato da autora:
Instagram: @Torettifaveri

Confira abaixo um episódio do Podcast sobre o assunto:

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O momento psicológico do jogo

O “momento psicológico do jogo” é uma expressão bastante ouvida quando falamos de futebol. Embora seja de senso comum, o conceito é objeto de estudos na Psicologia e ajuda a explicar fenômenos relacionados à performance de atletas.

Você já ouviu algum atleta falar que dependendo do seu primeiro lance na partida, o desempenho dele pode melhorar ou piorar naquele jogo? Ou algum atleta que dá um drible genial e se sente confiante para uma finalização difícil?! Isso pode ter a ver com o momento psicológico.

O que é o momento psicológico e como ele influencia num jogo de futebol?

Definimos o momento psicológico como uma alteração positiva ou negativa nos aspectos cognitivos, emocionais, fisiológicos e comportamentais, causados por um evento ou uma série de eventos. Essa alteração pode resultar em uma mudança no desempenho e no resultado da competição.

Existem duas teorias mais difundidas sobre o Momento Psicológico:

  • Modelo Multidimensional (Multidimensional Model): é um modelo complexo, pois desdobra a análise da relação Momento Psicológico-performance em uma sequência de eventos;
  • Modelo Antecedente-consequência: modelo mais simples, do estilo causa e consequência.

Vamos explicar com mais detalhes os dois modelos acima.

Modelo Multidimensional

Segundo o modelo multidimensional, a relação entre momento psicológico e desempenho pode ser analisada como uma sequência de fatos. Tal sequência é desencadeada por uma reação a um evento ou a uma série de eventos precipitadores, por exemplo, quando um jogador recebe um passe de um companheiro (evento precipitador) e a melhor jogada que pode realizar nesse lance é driblar um adversário (reação ou resposta a esse acontecimento).

De acordo com essa resposta, o atleta faz uma avaliação do seu desempenho no lance como significativamente superior ou inferior às suas exigências no contexto da situação. O atleta avalia como positivo, se ele considerar sua performance no lance bem sucedida. Assim sendo, sentirá um aumento na autoconfiança, na emoção, na motivação, na atenção concentrada e na sensação de controle da jogada.

Dessa forma, ele se sente mais confiante, aumenta sua autoestima e seus músculos se enrijecem com maior intensidade. Essa mudança positiva influencia seu comportamento, ou seja, o jogador corre mais rápido e realiza a jogada com mais vigor e, consequentemente, melhora o seu desempenho.

Além do estado mental positivo do atleta em questão, o modelo também ressalta a importância do momento psicológico do adversário. Nesse sentido, caso o defensor esteja num momento psicológico negativo, há maior possibilidade de êxito do atacante na jogada. O momento psicológico negativo pode fazer com que o defensor hesite na tomada de decisão e perca tempo, ou vá sem tanta confiança e vigor na jogada. Em resumo, a teoria ressalta que para que o momento psicológico influencie mais no lance, é necessário que o atacante esteja num momento positivo e o defensor num momento negativo.

Modelo Antecedentes-consequência

Similarmente, o modelo antecedentes-consequências afirma que momento psicológico se refere à percepção do jogador no que concerne a sua performance quando progride em seu objetivo numa jogada. Isso ocorre, pois, no início do lance, ele obteve um aumento da motivação, da percepção de controle, do otimismo, da energia e do sincronismo de suas ações. Se o atleta não for bem-sucedido no início da jogada, há uma redução desses mesmos aspectos. Isso explica a ideia de alguns atletas verbalizarem indicando que seu desempenho durante a partida está condicionado aos seus primeiros lances.

O Modelo Antecedentes-consequências nos diz que variáveis situacionais que antecedem uma jogada podem afetar o momento psicológico. Em outras palavras, circunstâncias que antecedem uma jogada ou mesmo a maneira como uma jogada começa, por exemplo, com uma grande roubada de bola, podem melhorar o momento psicológico. Experienciar um momento positivo onde o atleta esteja se sentindo motivado, otimista, com bastante energia, tendo controle e sincronismo em suas ações, pode originar uma melhora na performance. Da mesma forma, uma diminuição na motivação, no otimismo, na energia, etc., resultando num momento negativo, pode ser extremamente prejudicial ao desempenho do jogador no lance.

É crucial ressaltar que esses modelos não são fechados, definitivos e exclusivos. Eles auxiliam didaticamente a compreensão do momento psicológico e sua influência na performance. Além disso, o momento psicológico não é o que determina o desempenho, mas sim um dos vários fatores neste cenário complexo. Outros aspectos psicológicos como ansiedade, estresse, satisfação no trabalho, dificuldade da tarefa, treinamento, apoio da torcida, e uma infinidade de outras variáveis influenciam no desempenho do jogador.

O momento psicológico do jogo e as estratégias

Sabendo da influência do momento psicológico no desempenho dos atletas, alguns treinadores utilizam estratégias que podem beneficiar sua equipe. Por exemplo, equipes que jogam numa proposta mais reativa são atacadas mais vezes durante um jogo. Comumente, há um entendimento de que quem é mais atacado está “sob pressão” ou situação vulnerável. No entanto, times reativos utilizam o discurso do “saber sofrer”, fazendo os atletas compreenderem que aquela situação faz parte do modelo de jogo. Nesse sentido, eles se sentem mais motivados quando são mais atacados (sem sofrer gol), porque compreendem que estão executando a estratégia proposta.

Similarmente, equipes que jogam com vantagem de gol(s) qualificado em jogos eliminatórios podem se preparar para partidas entendendo que sofrer gol não irá influenciar tanto no resultado. Dessa forma, os atletas podem jogar sem se abalar caso levem um gol.

Num âmbito individual não é raro observar diferença de comportamento e desempenho em jogadores de acordo com o momento psicológico numa partida. É o caso de jogadores que performam muito abaixo quando o time está perdendo, por exemplo. É importante observar esses detalhes, pois eles geram vulnerabilidades que o adversário pode se beneficiar.

Outro ponto comum são em jogos decisivos, onde alguns atletas mais jovens podem sentir maior influência do momento psicológico e performar mal por terem cometido algum erro em determinado momento da partida. Por exemplo, um jovem zagueiro que oferece um contra-ataque resultando em gol do adversário pode sentir negativamente o fato. Posteriormente ele poderá jogar excessivamente preocupado com o desempenho e acabar se desconcentrando na partida.

Como lidar com as influências do momento psicológico da partida?

Primeiramente, necessitamos que o atleta tenha um bom preparo psicológico. O treinamento de habilidades psicológicas ajuda a melhorar essas capacidades. Através dos métodos e técnicas do treinamento mental no futebol é possível ter um maior autocontrole, concentração e outras capacidades que auxiliam no controle emocional em momentos críticos. Por outro lado, é interessante aumentarmos a confiança do atleta após cada vantagem obtida, usando o momento psicológico de forma favorável.

No futebol de alto rendimento é necessário ter um alto nível de concentração na partida, eliminando distrações. Outro aspecto é conseguir lidar com alternâncias de placar, situações adversas e manter o controle. Dessa forma, podemos reduzir a influência negativa dos fatos do jogo.

O que aprendemos sobre o momento psicológico do jogo?

O Momento Psicológico no esporte é um conceito em desenvolvimento, mas que apresenta evidências científicas. No futebol existem várias “convenções empíricas”, ou seja, situações comuns percebidas pelos profissionais que ali trabalham, porém, carecem de explicações mais complexas e encaixadas. Nesse sentido, há campo para o desenvolvimento de estudos acerca deste tema.

No campo prático, observar a influência do momento psicológico numa partida de futebol pode contribuir para a elaboração de estratégias, aperfeiçoamento de deficiências inerentes a sistemas táticos ou modelos de jogo, bem como a potencialização destes. Simultaneamente, atletas que tomam consciência da influência do momento psicológico no seu desempenho podem ter melhores indicadores para treinar e analisar adequadamente sua performance.

Referências e Links:

Excelência na produtividade: a performance dos jogadores de futebol profissional

How psychological momentum changes in athletes during a sport competition

Psychological Momentum: Why Success Breeds Success

Psychological Momentum within Competitive Soccer: Players’ Perspectives

Contato do Autor:
Matheus Padilha Abrantes Reis
Instagram: @28padilha
E-mail: matheuspadilhaar@gmail.com

Confira abaixo um episódio do Podcast sobre o assunto:

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Desafios da preparação física nas categorias de base

O assunto agora são os desafios da preparação física nas categorias de base. Formar e revelar grandes atletas sempre foi característica do futebol brasileiro. Contudo, nos últimos anos, acerca de críticas e maus resultados, o nosso cenário formador passou por uma grande revolução. Mas, será que por aqui estávamos formando os atletas ou apenas dando a oportunidade dos mesmos mostrarem o seu talento? Será que trabalhávamos para melhor preparar e desenvolver o jovem atleta ou deixávamos essa função a carga do ambiente? Entretanto, poderíamos melhorar este cenário?

Formar x revelar

A princípio é necessário conceituar dois termos distintos: formar e revelar. Formar um atleta significa desenvolvê-lo como tal, em todas as suas vertentes. Revelar, por sua vez, é o ato de lançar o jovem atleta na equipe profissional, dar a ele a oportunidade de jogar no alto nível.

Assim, junto a esses questionamentos iniciais, a evolução do futebol como um todo serviu de companhia para uma mudança de pensamento a respeito das categorias de base por aqui. Logo, desenvolver o jovem indivíduo em sua totalidade passou a ser o foco. Desse modo, a ideia é identificar talentos e prepará-los taticamente, tecnicamente, fisicamente, emocionalmente e socialmente através de um conteúdo pedagógico bem desenvolvido.

Preparação física na base

Além disso, são muitos os tópicos e procedimentos que fazem parte do processo de formação do atleta. No presente artigo, teremos como foco a preparação física. Primeiramente, é necessário ter fixa a ideia de que cada jovem atleta é um individuo diferente (princípio da individualidade biológica).

Em outras palavras, frente a esse conceito básico, é de extrema importância que a preparação física nas categorias de base respeite o nível de maturação de cada atleta. Para isso, devemos considerar o efeito da idade biológica: o grau de maturação do jovem pode não ter ligação com sua idade cronológica (anos). Deste modo, dois jovens atletas podem possuir a mesma idade, mas níveis de desenvolvimento corporal (massa muscular, estrutura óssea e articular, estatura…) totalmente distintos. Resumidamente, a maturação biológica representa todo o processo que o corpo humano e suas estruturas passam para chegar à fase adulta. Portanto, esse é o primeiro passo para sermos mais assertivos em programas de preparação física nas categorias de base.

Sobretudo a puberdade é um ocorrido determinante nessa fase. É ela que vai determinar o grau de maturação e consequentemente o que o atleta necessita em relação a treinamento para o seu desenvolvimento. Assim, podemos dividir os atletas em pré-púberes, púberes ou pós-púberes. Para isso, podemos submetê-los á avaliações clínicas ou somáticas (cálculo do Pico de Velocidade de crescimento-PVC) através da massa corporal, estatura, comprimento tronco-encefálico, comprimento dos membros inferiores e idade cronológica.

Etapas de formação na base

Da mesma forma, nas categorias de base, o jovem atleta deve passar por algumas etapas distintas, cada qual com seu objetivo específico. A primeira etapa é a iniciação esportiva (6 a 10 anos), a segunda é a especialização (11 a 15 anos), e por fim o rendimento (16 a 20 anos). Lembrando que nem sempre a idade cronológica equivale à idade biológica; a segunda deve ser considerada.

Certamente, na iniciação o foco é o contato com o esporte (não somente o futebol). São componentes muito importantes como se movimentar de maneiras distintas, bem como expor a criança a estímulos que desafiem o seu corpo. O objetivo é a construção de um amplo repertório motor. Correr, pular, saltar, rastejar, agachar, puxar, chutar, aterrissar, lançar, apanhar… a criança precisa se movimentar de maneira global. Dessa forma, ela irá adquirir uma base sólida de habilidades motoras gerais que servirão de suporte neuromotor nas habilidades especificas do futebol que serão exigidas nas próximas etapas.

Enquanto que na especialização, o foco passa a ser o futebol e suas respectivas habilidades motoras.  A ênfase está agora no que é especifico, tanto em questão de habilidade motora quanto capacidade física.

Por fim, no rendimento, a regra de ação é potencializar gradualmente tudo que o jovem atleta construiu até ali. A aprendizagem vai saindo de cena e o rendimento começa a tomar conta do processo.

Meios e métodos

Como vimos, existem etapas e indivíduos diferentes. Afinal, o método das “janelas de oportunidade” ou “períodos sensíveis” tem se mostrado o mais usual quando o falamos em preparação física nas categorias de base.  Tal metodologia propõe qual capacidade física está mais sensível ao treinamento para cada fase do desenvolvimento infantil. Recomendo a leitura do livro “Long-Term Athlete Development” para maior aprofundamento.

Em contrapartida, essa abordagem passou a ser questionada nos últimos anos. Pesquisadores holandeses contestaram tais ideias em um artigo interessante publicado este ano. Segundo o estudo, os períodos sensíveis devem enfatizar habilidades motoras e não capacidades físicas. Reportam que, cada movimento realizado para determinado esporte necessita da integração de diferentes capacidades físicas e não destas isoladas.

Outro conceito contestado pelo estudo é que não existem evidências de que um atleta não chegará ao ápice do rendimento se não trabalhar cada capacidade física no seu hipotético período sensível. Portanto, ter em mente ambos os conceitos é essencial para a elaboração de um programa de preparação física na base que vá de encontro à sua realidade.

Treinamento de força na base

Certamente, parece-nos que aqui está o ponto de diferenciação. A força é a capacidade física que rege as ações determinantes do futebol e seus benéficos para performance e redução do índice de lesões.

Se a considerarmos de maneira simplista, ela depende de hormônios que o corpo só começa a produzir pós puberdade. Afirmação esta que não deixa de estar correta. Contudo, estímulos neurais também integram essa capacidade física e possuem seu alto grau de importância.

Pensando dessa forma, podemos introduzir o trabalho de força já nos primeiros anos de especialização. Coordenação intra e inter muscular e força de estabilização são componentes treináveis nessa fase. Já força máxima, resistência de força e potência necessitam de componentes endócrinos e devem ser treinados pós puberdade. Em suma, o trabalho da força deve ser constante durante todo o processo de preparação física nas categorias de base.

Desafio para a preparação física na base

Resumidamente, ensinar e potencializar gradualmente. Esse é o ponto chave da preparação física nas categorias de base. Saber respeitar os limites do jovem atleta e individualizar o trabalho é o grande desafio. Integrá-lo ao desenvolvimento tático, técnico, psicológico e social também. Nessa perspectiva, muitos clubes passaram a enxergar as categorias de base como investimento e não custo. O trabalho com os garotos precisa ser de excelência e os cuidados devem ser até maiores do que com os atletas profissionais. No Brasil demos os primeiros passos, mas ainda temos muito a percorrer. Seguimos na construção de uma categoria de base forte, formadora e que respeite as raízes brasileiras, esse é o caminho.

Confira um episódio do Podcast Ciência da Bola que fala sobre o assunto:

Contato do autor: ra.junior@hotmail.com

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Modelo de Jogo no Futebol: o que é e para que serve?

Este texto abordará o que é modelo de jogo no futebol e complementa a publicação sobre periodização tática, feita anteriormente. Aliás, se você quiser saber mais sobre o assunto, também publicamos um texto que apresenta a importância dos fractais na periodização tática. Assim, a primeira questão que o treinador precisa desenvolver para iniciar a Periodização Tática é a criação de um Modelo de Jogo no futebol. Esse modelo norteará os treinamentos e a competição.

O que é Modelo de Jogo no futebol?

Fonte: criado pelo autor.

Primeiramente, citaremos o entendimento do próprio Prof. Vitor Frade acerca do assunto, em entrevista:

“Portanto, para mim, modelo é o que existe em termos estruturais e funcionais, que proporciona que regularmente uma equipa se identifique como equipa. Que mesmo quando você mete umas camisolas da cor “do burro quando foge” ao ela estar a jogar mal você diz: “Não, este é o Barcelona”. O modelo é este lado, esta evidência empírica.”

O Modelo de Jogo no futebol, em síntese, é a “descrição do jogar” da equipe. Ou seja, está no imaginário do técnico. Portanto, será a maneira como ele idealiza que os jogadores desta equipe se comportem em cada momento do jogo, como interajam entre si para solucionar os problemas que aparecem durante a partida, etc.

Modelo de jogo ideal vs concepção de jogo.

O Modelo de Jogo, também chamado de Modelo de Jogo Ideal, será o norteador da equipe nos treinos e competições. Segundo o livro de Israel Teoldo, se o futebol se joga por conceitos, é o modelo de jogo que dá ou retira significados a esses conceitos, que os agrega ou separa.

Assim como vimos acima, o Modelo está presente na cabeça do treinador, tendo, a sua disposição, um cenário perfeito, com os melhores jogadores do mundo, semanas inteiras para treinar, condições ótimas de treinamento, etc. Porém, isso nunca será possível. Dessa forma, a Concepção de Jogo ou Modelo de Jogo Adaptado será a forma como o técnico prevê que a equipe jogue, mas considerando os itens a seguir:

  • Característica dos jogadores;
  • Cultura do clube;
  • Cultura da região;
  • Estrutura do clube;
  • Pretensões do clube nas competições que há de disputar;
  • Ideia de jogo do treinador.

Portanto, após o técnico ter criado um estilo de jogo “perfeito” (Modelo de Jogo), ele irá adequá-lo às condições citadas acima (Concepção de Jogo). Segundo Israel Teoldo, a concepção de jogo é influenciada pelo modelo de jogo ideal e, simultaneamente, condicionada por vários constrangimentos.

Mas, por que “modelar o jogo”?

Ora, já sabemos acerca da complexidade do jogo de Futebol e que, como tal, precisa ser tratado com olhares sistêmicos. Então, partindo disso, como criamos parâmetros para que os jogadores compreendam o jogar a que se pretende e consigam sintonia coletiva? Para responder, vamos nos aproveitar do trecho de Lê Moigne citado em “Abordagem sistêmica do jogo de futebol: moda ou necessidade?”: 

“Se pretendemos construir a inteligibilidade de um sistema complexo, devemos modelá-lo.” Ou seja, precisamos criar modelos que possam ser compreendidos pelos jogadores, de modo que eles reproduzam determinados padrões no jogo.

As duas características principais ao modelá-lo são:

Unicidade

Não existe um modelo genérico, pois o jogo é complexo e há todo um contexto, também complexo, ao seu entorno. Portanto, cada modelo é único, sem a possível aplicação do mesmo em diferentes locais e momentos. 

Pense com você mesmo: sempre teremos à disposição a mesma estrutura, os mesmos jogadores e objetivos iguais? Todos os clubes e cidades possuem a mesma cultura? Bom, assim você consegue entender a tal da unicidade que citamos. Aliás, nem no mesmo clube, na mesma temporada, mas em alturas diferentes desta, teremos sucesso com um mesmo modelo, mas esse é um assunto para o próximo tópico.

Sem fim em si mesmo

Primeiro, há o costume de se falar que um modelo não tem fim em si mesmo. Mas o que isso quer dizer? Significa que não é fechado, sendo suscetível a otimizações e adaptações. E tudo isso se deve a influência do tempo, já que, por exemplo, as pretensões do clube podem variar ao longo da competição, assim como nem sempre todos os jogadores estarão disponíveis. Além desses fatores também existe a busca constante pelo melhor “ajuste” possível (otimização). 

Cabe aqui citar outro trecho da entrevista do Prof. Vitor Frade: “o modelo é qualquer coisa que não existe em lado nenhum, todavia eu procuro encontrá-lo”.

Enfim, não existe um molde genérico, um modelo aplicável em diferentes contextos e cenários, afinal, falamos de um jogo complexo sob a influência do tempo.

O modelo de jogo na Periodização Tática

A tática, representada pelo Modelo de Jogo, é tida como uma “supradimensão” da Periodização Tática. Mas o que isso quer dizer? Ora, que as demais dimensões (técnica, física e mental/psicológica) são levadas de arraste ao se treinar a dimensão tática. Ou seja, quando treinamos o jogar, tomando em consideração o que queremos propor como Modelo de Jogo, acabamos também treinando indiretamente as demais vertentes. 

Da mesma forma que o citado antes, Mourinho, no livro Porquê de tantas vitórias, deixa isso claro ao mencionar que sua preocupação desde o primeiro dia de treinamento é fazer com que a equipe possua um conjunto de princípios que deem organização a ela (equipe), e as preocupações técnicas, físicas e psicológicas surgem por arrastamento.

Contato dos autores:

Chrístopher Kilpp Suhre
Instagram: @Christopher_Suhre

Roberto Augusto Lazzarotto Pereira
Instagram: @ralazzarottop

Confira abaixo um episódio do Podcast sobre o assunto:

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O fisiologista no futebol e os treinos semanais

O fisiologista possui um papel fundamental na construção da dinâmica de cargas em uma semana de treinamento no futebol, seja a semana com um ou mais jogos. Como discutido em textos anteriores, quantificar, monitorar e controlar as cargas dos atletas são funções inerentes ao fisiologista. No entanto, além dessas funções, o fisiologista auxilia a preparação física e a comissão técnica no planejamento de cargas que serão impostas em cada dia da semana.  Nesse texto, discutiremos como o ocorre essa relação entre preparação física e fisiologia no planejamento de treinos em cada dia da semana.

Cargas de trabalho e os dias da semana

As cargas de treino no futebol variam conforme os dias da semana. Consideramos dois fatores para selecionar o que devemos trabalhar em cada dia da semana, são eles: o dia do jogo anterior e o dia do próximo jogo. Assim, selecionamos os dias em que as cargas serão de recuperação, manutenção ou aquisição.

Na imagem abaixo vamos observar a dinâmica de cargas em duas situações. Em primeiro lugar, consideraremos uma semana cheia para treinamentos, com jogos apenas nos finais de semana. Em segundo lugar, exemplificaremos a semana com menos treinos, pois há dois jogos nesse período, sendo um no final de semana e outro no meio da semana.

Fonte: criado pelo autor

Podemos perceber que existe uma diferença entre a natureza das cargas de treino considerando essas duas situações. Neste sentido, o fisiologista tem o papel de determinar o volume e intensidade de cada dia de treino, buscando obter um ótimo nível de performance e recuperação dos atletas.

Fisiologista e as capacidades físicas

Além do volume e intensidade das sessões, no microciclo são selecionadas as capacidades físicas que devemos enfatizar em cada treino com natureza aquisitiva. Por exemplo, é comum fragmentar as sessões de aquisição em força, resistência e velocidade. Dessa forma, o fisiologista deve monitorar os atletas para entender se as exigências de carga externa atingiram o planejado para cada um deles, nos diferentes dias. Em casos de não obtenção do planejado, algumas decisões são tomadas, buscando realizar exercícios que são complementos físicos para atingir aquilo que foi estipulado.

Na imagem abaixo observamos os dias de treino e as capacidades físicas que são enfatizadas conforme o jogo anterior e próximo jogo. No primeiro gráfico há somente jogos aos domingos, já no segundo gráfico há jogos tanto nos finais de semana como no meio de semana. Como podemos observar, em cada dia da semana é visado uma capacidade física diferente. Além disso, as cargas variarão conforme o número de jogos na semana.

Fonte: Artigo publicado em 2020

Fisiologista no futebol

Por fim, o fisiologista deve ser figura presente no planejamento semanal das equipes de futebol. Sua presença no planejamento dos treinos irá auxiliar os preparadores físicos e treinadores. Como resultado, isso se refletirá na recuperação dos atletas, na manutenção do estado ótimo de desempenho e na redução do número de lesões na equipe. Isso porque a aplicação correta das cargas de treinos diárias podem “proteger” os atletas de situações de alto risco durante a temporada competitiva.

Confira abaixo um episódio do Podcast sobre o assunto:

Contato do Autor:
E-mail: diegoaugustoufs@gmail.com
Instagram: @augustsdiego

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Transferência de Aprendizagem do Futebol para a Escola

É sabido que o futebol escolar, além de proporcionar atividade física e diversão, pode ser um aliado valioso na educação formal. Este mês, um estudo publicado na revista científica Physical Education and Sport Pedagogy, destacou quatro áreas principais de transferência de aprendizagem entre o futebol escolar e e o ensino formal na escola, em crianças ainda na iniciação esportiva.

O estudo foi conduzido por Abel Merino Orozco, do Departamento de Ciência da Educação da Universidade de Burgos na Espanha, juntamente com seus colaboradores; com o título “Exploring socio-educational learning transfer between school and non-formal school football in six- and seven-year-old children”, em tradução livre: “Explorando a transferência de aprendizagem socioeducativa entre o futebol escolar e o futebol escolar não formal em crianças de seis e sete anos de idade

Os pesquisadores buscaram compreender as principais implicações educativas na transferência de aprendizagens entre o ambiente não formal do futebol escolar e a escola, de forma a procurar a otimização das estratégias de apoio. Os autores acompanharam 57 escolares de seis anos e 44 escolares de sete anos, durante o primeiro e segundo ano de participação no futebol, por meio de observação além de entrevistas com professores, monitores e familiares.

E como resultado, o estudo destacou quatro áreas principais de transferência de aprendizagem entre o futebol e a escola:

1. Quase-escola

O futebol funciona como uma “quase-escola”, onde os conteúdos aprendidos em sala se conectam com a prática esportiva. Valores como disciplina, trabalho em equipe e fair play ganham vida no gramado, reforçando o que é ensinado em sala de aula.

2. Socialização

O esporte é um terreno fértil para o desenvolvimento de habilidades sociais. O futebol escolar cria um complexo network de relações, onde as crianças aprendem a colaborar, respeitar diferenças e lidar com hierarquias baseadas em habilidades.

3. Construção de identidade competitiva

O futebol contribui para a formação da identidade da criança, moldando sua autoestima e capacidade de adaptação a diferentes papéis dentro da equipe. A gestão das emoções, o entendimento de moralidade competitiva e a autoavaliação são aspectos trabalhados durante os jogos e treinos.

4. Autoavaliação

A avaliação no futebol costuma ser focada em resultados e desempenho individual. As crianças internalizam essa perspectiva, criando seus próprios padrões de autoavaliação baseados em conquistas quantificáveis e contribuição para o time.

O futebol escolar tem o potencial de ser muito mais do que apenas um passatempo. Ao utilizá-lo como ferramenta complementar à educação formal, podemos contribuir para o desenvolvimento integral das crianças, formando cidadãos conscientes, responsáveis e socialmente engajados.

Para otimizar esse processo de aprendizagem, o estudo ressalta a importância da comunicação entre escola, família e monitores esportivos. O trabalho conjunto desses agentes educacionais é fundamental para potencializar o impacto positivo do futebol na formação das crianças.

Conclusões e Recomendações

Além dos resultados do estudo, outras recomendações são importantes para treinadores e professores dos anos iniciais.

Por exemplo, o Futebol pode gerar discussões e desentendimentos. É importante que pais, professores e monitores estejam preparados para mediar esses conflitos, transformando-os em oportunidades de aprendizado sobre resolução de problemas e empatia.

Outro destaque é que se deve desenvolver habilidades sociais, uma vez que o esporte pode ser um catalisador para o desenvolvimento de habilidades essenciais, como comunicação, liderança e cooperação. É importante criar um ambiente inclusivo e respeitoso, onde todas as crianças se sintam acolhidas e valorizadas.

A competição saudável é também destacado. Nessas idades, deve-se utlizar a competição como uma ferramenta e não um fim. A vitória é importante, mas não é tudo. É fundamental ensinar às crianças a valorizar o esforço, o respeito ao adversário e o espírito de equipe, construindo uma visão equilibrada da competição.

Para ter acesso a essas e outras notícias e artigos científicos em primeira mão, além de discutir sobre o assunto, clique no botão abaixo e participe da Comunidade Ciência da Bola LAB.

Fonte do Artigo

https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/02640414.2013.786185

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O desempenho físico no futebol muda conforme o estilo de jogo?

Como visto no texto anterior sobre as demandas físicas e fisiológicas, o jogo de futebol vem se tornando mais intenso com o passar dos anos, requerendo um melhor desempenho físico dos jogadores. Nesse sentido, um estudo realizado por pesquisadores europeus em 2015, aponta um crescimento de 30% a 50% nas ações de alta intensidade entre as temporadas 2006-2007 e 2012-2013 da Premier Legue.

Contudo, devemos compreender a natureza complexa e dinâmica do futebol, ou seja, as vertentes do jogo (técnica, tática, física e psicológica) estão correlacionadas e devem ser analisadas de uma forma sistêmica. Portanto, alguns fatores como a velocidade, distância percorrida e manutenção da posse de bola são relevantes para entendermos a intensidade e desempenho físico no futebol.

Desempenho físico no futebol: o impacto da posse de bola

Primeiramente, sabemos que ter somente a posse de bola não demonstra o modelo de jogo de uma equipe. Entretanto, jogar com ou sem a posse de bola faz parte da ideia de jogo do treinador e do modelo de jogo do clube. De modo geral, em uma visão sistêmica, estudos demonstraram que a posse de bola tem uma relação importante nas variáveis físicas e técnicas dos jogadores.

Um estudo publicado em 2019, ao analisar jogos da copa do mundo de 2018, por exemplo, concluiu que as seleções caracterizadas com jogo de maior posse de bola apresentaram maiores distâncias percorridas em alta intensidade e sprints, em comparação às seleções caracterizadas com jogo direto (menos posse de bola). Indicando, deste modo, uma relação entre fatores táticos e físicos, mais especificamente entre o percentual de posse de bola e a demanda física.

Em outros estudos, equipes com maior posse de bola percorreram maior distância em alta intensidade na fase ofensiva. Em contrapartida, as equipes que apresentam um jogo “reativo” percorrem maiores distâncias em alta intensidade quando se encontram em fase defensiva. Veja os dados na figura abaixo.

Figura 1. Em preto é a % com posse de bola/ Em branco a % sem posse de bola / WP= distância percorrida com posse / WOP= distância percorrida sem posse / BOP= fora de jogo Fonte: (Artigo publicado em 2016).

Assim, percebemos pelo gráfico que a distância total, distância em baixa velocidade (low speed), distância em média velocidade (medium speed) e distância em alta velocidade (high speed) não sofreram grandes alterações decorrentes do fator de posse ou não da bola. Todavia, as equipes com maior porcentagem de posse de bola (barras pretas), percorreram uma maior distância quando de posse da bola (WP). O contrário acontece com as equipes com menor percentual de posse de bola (barras brancas/WOP).

Posição e desempenho físico

Conforme vimos até aqui, a manutenção ou não da posse de bola pode influenciar as demandas físicas e fisiológicas dos jogadores. Assim, essa diferença, talvez seja em consequência, principalmente, das distintas posições e funções táticas exercidas pelos jogadores em campo.

Dessa forma, para entendermos melhor como os indicadores físicos por posição são influenciados pela posse ou não da bola, os estudos que citamos também mostraram dados interessantes. Foi constatado, por exemplo, que meio-campistas e atacantes apresentam uma demanda física maior quando a equipe joga com menos posse de bola. Esse resultado provavelmente ocorre pelo fato deles precisarem fechar espaços e pressionar opositores, de modo a recuperar a bola.

Por outro lado, um efeito contrário foi encontrado nos zagueiros. Nos zagueiros foi identificado uma maior porcentagem de corridas de alta intensidade nas equipes com maior posse de bola durante a fase ofensiva, pois há uma tendência destes jogadores permanecerem mais parte do tempo ocupando a metade ofensiva do campo, auxiliando na circulação da bola, conforme consta o gráfico na figura abaixo.

Figura 2. Comportamento dos zagueiros. Barra preta é a % com posse de bola / Barra branca é a % sem posse de bola. Fonte: (Artigo publicado em 2016).

A imagem acima mostra o percentual do tempo gasto dos zagueiros na metade ofensiva do campo de jogo. Desta forma, fica nítido perceber que os zagueiros pertencentes as equipes com maior posse de bola (barras pretas) se dispõem no campo ofensivo durante grande parte do tempo de jogo. Em outras palavras, há uma tendência destes jogadores executarem uma maior porcentagem de ações de alta intensidade em equipes com maior percentual de posse de bola.

Posse da bola x demanda física

Portanto, os estudos aparentam uma congruência, indicando que equipes com maior percentual de posse de bola executam maiores números de ações de alta intensidade, quando de posse da mesma. Além disso, mostram uma forte relação entre diferentes posições x estilos de jogo e a demanda física.

Entretanto, a ênfase ou não na posse de bola não parece influenciar significativamente nas demandas físicas gerais das equipes. Deste modo, fica a sugestão para mais trabalhos neste sentido, analisando a natureza complexa e dinâmica do futebol, a fim de procurarmos entender melhor como as vertentes se correlacionam e influenciam na performance durante o jogo.

Fontes e Referências

https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/02640414.2013.786185

https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/02640414.2015.1114660

Contato do autor:
Instagram: endrigo_f
E-mail: endrigof1@gmail.com

Confira abaixo um episódio em nosso Podcast sobre o assunto: