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Lesões no futebol: uma visão psicofisiológica

O futebol é um esporte de contato, o qual exige dos atletas uma alta demanda física durante toda a temporada competitiva. Assim, a ocorrência de lesões no futebol é inevitável. Nesse texto abordaremos as lesões como um todo e, além disso, trataremos dos aspectos psicofisiológicos dessas lesões.

Mas, o que é Lesão?

Atualmente existem diversas definições de lesões no futebol, como exemplo, citaremos o trabalho do pesquisador Gonçalves, da Universidade do Porto. Gonçalves diz que a “lesão do futebolista será todo tipo de dano físico observado ao longo de uma época desportiva e ocorrido numa situação de treino ou competição”.

Para complementar, a partir de uma perspectiva da Psicologia do Esporte, a lesão é definida como trauma corporal que resulta no mínimo em uma incapacidade física e uma inibição temporária da função motora. Desse modo, a lesão é percebida como multifacetada e está intimamente ligada à dor.

Quais as principais lesões no futebol e suas causas?

Apesar de haver divergências no quesito definição e classificação, há um consenso na literatura sobre os tipos de lesões mais comuns no meio do futebol, as quais podemos conferir no quadro abaixo.

Adaptada do artigo Exposure and injury risk in Swedish elite football:a comparison between seasons 1982 and 2001

Nesse sentido, podemos constatar que lesões ligamentares e musculares são as que mais afetam atletas de futebol, seguidas de problemas em tendões e ossos. Além disso, foi constatado que o joelho e a coxa seriam as regiões com maior incidência de lesões por parte dos futebolistas.

Outro fator relevante sobre a ocorrência de lesões remete a como elas ocorrem. Estudos verificaram que a maioria das lesões são induzidas por contato entre atletas. No entanto, de maneira geral, estas lesões apresentam uma magnitude menor quando comparadas com as lesões ocorridas sem a presença de contato externo. Isso nos leva a pensar que, por muitas vezes, os atletas não estão aptos a suportar as demandas do jogo ou não obtiveram tempo necessário de recuperação entre jogos/competições.

Outros fatores que podem estar ligados às lesões no futebol

Embora a maior parte das lesões tenha uma origem física, há outros fatores que influenciam não somente o motivo das lesões, mas também o quão rápido os atletas poderão se recuperar. Por exemplo, fatores sociais, psicológicos e de personalidade contribuem para o aparecimento ou agravamentos de lesões.

Dentre os fatores citados, existem aspectos mais implícitos e outros mais explícitos no ambiente competitivo. Existe uma tendência em valorizar atletas que atuam “no sacrifício”, ou seja, que joguem sentindo dor ou lesionados. Isso é uma questão sociocultural que influencia nas decisões de atletas e treinadores. Similarmente, fatores psicológicos têm importância à medida que um atleta apresenta níveis de ansiedade e estresse que interferem na performance.

Ainda nesse sentido, fatores de personalidade influenciam à medida que cada atleta apresenta traços de ansiedade elevados ou baixa capacidade de enfrentamento em determinadas situações. Por exemplo, uma situação percebida como ameaçadora aumenta o estado ansioso, causando diversas mudanças na atenção e na tensão muscular (como distração e contração). Isso, por sua vez, aumenta a chance de lesão.

Ainda relativo aos fatores psicológicos, o aspecto emocional contribui à proporção que a tomada de decisão fica prejudicada. Dessa forma, com pequenos déficits no aspecto cognitivo, os gestos técnicos podem ficar prejudicados, podendo ter lances que causem lesões em jogos ou treinos.

Questões pessoais são, em geral, as principais causas dos problemas de ordem emocional de jogadores de futebol. Antes de serem atletas de alta performance, eles são pessoas comuns (pais, filhos, maridos, etc). Nesse sentido, todas essas questões contextualizadas permitem compreender de maneira mais ampla o problema relativo às lesões e recuperação.

Prevenção de lesões

Agora que já sabemos quais as principais lesões no futebol e quais os aspectos psicofisiológicos que podem causá-las ou retardar a volta do atleta, focaremos na prevenção e recuperação do jogador de futebol.

Nesse sentido, do ponto de vista físico, podemos pensar que prevenção de lesões e promoção de performance andam lado a lado e, desse modo, facilitam a compreensão de como os preparadores físicos podem promover o trabalho de prevenção de lesões.

Considerando que desequilíbrios musculares estão associados às lesões, citaremos a força como uma capacidade a ser trabalhada. Visto que, um atleta mais forte, além de ter maior probabilidade de obter grande desempenho, está menos propenso a lesão.

Além das capacidades físicas como a força, flexibilidade e condicionamento cardiovascular, as alterações anatômicas e de morfologia corporal também colocam o atleta em um grupo de risco e devem ser corrigidas.

Normalmente as capacidades envolvidas para a correção destes pontos envolvem:

  • Fortalecimento do core;
  • Fortalecimento excêntrico dos músculos da coxa;
  • Treinamento proprioceptivo;
  • Estabilização dinâmica;
  • Mobilidade articular;
  • Promoção da potencialização elástica, mecânica e reflexa ou ciclo de alongamento-encurtamento muscular.

Do ponto de vista psicológico, uma maneira de prevenir as lesões é manter a rotina de treinamento de habilidades psicológicas em dia. Em outras palavras, estar emocionalmente bem preparado e com saúde mental é a melhor forma de prevenir o aparecimento e/ou agravamento de lesões influenciadas pelo aspecto psicológico.

De forma análoga ao treinamento físico, a sobrecarga cognitiva deve ser considerada, já que a capacidade de tomada de decisão começa a reduzir com a fadiga mental. Portanto, é importante gerenciar treinamentos mais complexos e treinamentos de menor complexidade, a fim de fornecer uma forma de “descanso cognitivo” aos atletas.

Recuperação de lesões no futebol

Respostas dos atletas às lesões

O aspecto psicológico da recuperação é fundamental no que diz respeito às lesões no futebol. Tendo em vista que no esporte em geral as lesões podem findar as carreiras dos atletas, a lesão pode ter um peso enorme para cada pessoa. Didaticamente se dividem em 3 as respostas emocionais mais comuns às lesões:

  • 1 Processamento de informações relevantes à lesão: primeiramente, o atleta lesionado concentra-se em informações relacionadas a dor, à consciência da extensão da lesão e indaga como ela ocorreu, além de reconhecer as consequências negativas ou a inconveniência.
  • 2 – Revolta emocional e comportamento reativo: num segundo momento, quando o atleta percebe que está lesionado, pode se tornar emocionalmente agitado, experimentar emoções oscilantes, sentir-se emocionalmente esgotado, ficar em isolamento, sentir-se em choque, desacreditado, em negação ou ter autocompaixão.
  • 3 – Perspectiva e enfrentamento positivos: por último, o atleta aceita a lesão e lida com ela, iniciando os esforços de enfrentamento positivos, exibindo uma boa atitude e otimismo, ficando aliviado ao perceber o progresso.

Fases da lesão

Outra maneira didática de trabalhar a recuperação de lesões é a divisão da recuperação entre três fases descritas pelos pesquisadores Bianco, Malo e Orlick:

  • Fase aguda da lesão;
  • Fase de reabilitação e recuperação;
  • Fase de retorno à atividade total.

Para cada fase dessa existe uma estratégia de intervenção.

Para a fase aguda é necessário ajudar o atleta a lidar com as respostas emocionais que acompanham o aparecimento de lesão. Logo depois, na fase de reabilitação, ajudar o atleta a manter a motivação e a adesão aos protocolos de reabilitação. Finalmente, a fase de retorno à atividade total, na qual a recuperação só está completa quando o atleta consegue voltar ao seu funcionamento normal no esporte.

Nessas intervenções existem métodos e técnicas que contribuem para uma recuperação mais rápida dos atletas, como a mentalização. Entretanto, é importante ressaltar que cada aspecto da recuperação funciona melhor dentro de um planejamento transdisciplinar.

Por isso, além dos aspectos psicológicos, o conhecimento das demandas físicas e fisiológicas do jogo são de suma importância para o processo de reabilitação do jogador. Pois, submetendo o atleta a um programa de recuperação que contemple tais demandas de forma mais especifica, poderá fazer com que este futebolista regresse aos treinamentos já em melhores condições.

Outras formas de recuperação de lesões musculares

Portanto, alguns autores apresentam programas de reabilitação pós lesão pautadas principalmente acerca da lesão muscular. Em suma, os processos se dividem da seguinte maneira:

  • Imobilização da área afetada o mais rápido possível;
  • Exercícios estáticos (isométricos);
  • Exercícios concêntricos com baixo grau de resistência e velocidade;
  • Exercícios concêntricos com maior grau de resistência e velocidade;
  • Trabalho de força.

No entanto, os programas se diferem no que diz respeito à especificidade dos exercícios propostos. Gestos motores como passe, domínio, condução de bola e chute em alguns protocolos são deixados para uma fase posterior, já em outros, são incluídos dentro do processo de recuperação.

O que entendemos sobre as lesões no futebol?

As lesões no futebol apresentam nuances que, por vezes, não são percebidas com facilidade. Portanto, compreender esse fenômeno como complexo e multifatorial é o primeiro passo para uma boa análise. Uma avaliação psicofisológica é uma proposta de entendimento para melhorar a prevenção e tratamento de lesões.

A prevalência de transtornos psicológicos no futebol é maior que na população geral e, em grande, parte deriva do constante estresse ao qual os jogadores são expostos. Dentro dessa lógica, a depressão é um dos mais comuns e está constantemente ligada às lesões. Um exemplo famoso é o do ex-jogador e hoje comentarista Pedrinho, que teve quadro de depressão e viveu atormentado por lesões em sua carreira.

Referências:

Role of sports psychology and sports nutrition in return to play from musculoskeletal injuries in professional soccer: an interdisciplinary approach;

Lesões musculares no Futebol

Futebol: Ciência aplicada ao jogo e ao treinamento.

Contatos dos autores:

Matheus Padilha matheuspadilhaar@gmail.com – @28padilha

Felipe Endrigo – endrigof1@gmail.com – @ endrigo_f

Confira abaixo um episódio do Podcast sobre o assunto: