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Lesões musculares no futebol

No texto anterior sobre Quais as Principais Lesões no Futebol?; vimos que uma alta porcentagem das lesões que ocorrem no futebol são as musculares. Esse tipo de lesão é frequente e representa um dos problemas médicos mais importantes no futebol de nível profissional.

Epidemiologia das lesões musculares no futebol

No futebol masculino de nível profissional, as lesões musculares são um dos maiores problemas enfrentados pelos jogadores, representando de 20% a 37% de todo o tempo ausente, ou seja, fora dos campos.

Assim, Jan Ekstrand, pesquisador da Universidade da Suécia, destaca que das 2.908 lesões musculares prospectadas durante os anos de 2001 a 2009 em seu estudo, 53% ocorreram durante jogos e 47% durante treinos. Além disso, essas lesões corresponderam a 31% de todas as lesões verificadas ao longo do estudo, sendo que 92% delas afetaram os 4 principais grupos musculares das extremidades inferiores, que são, por ordem: Isquiotibiais (37%), adutores (23%), quadríceps (19%) e panturrilha (13%).

Patologia da lesão muscular no futebol

Primeiramente, é importante saber que a lesão muscular, geralmente, está associada a uma contusão, distensão ou laceração, sendo esta última a mais incomum entre as 3 possíveis causas. Mas, independentemente da causa da lesão, a cicatrização do músculo esquelético segue uma espécie de padrão, onde 3 fases principais podem ser identificadas:

  1. Destruição;
  2. Regeneração;
  3. Remodelação. (ver Figura 1).
Figura 1. Representação esquemática do processo de cura do músculo esquelético, adaptado (Artigo publicado em 2005).

Dessa forma, verifica-se que a Fase de Destruição (Fase 1) está composta por 3 momentos que são: ruptura muscular, necrose das miofibras e a inflamação. No entanto, essa mesma distinção de momentos não vemos na Fase de Regeneração (Fase 2) e Fase de Remodelação (Fase 3). Isso ocorre porque são processos concomitantes, ou seja, a regeneração das miofibras e a formação da cicatriz ocorrem simultaneamente. Portanto, a progressão equilibrada de ambos os processos é fundamental para a recuperação correta da função contrátil do músculo.

Classificação das lesões

A princípio, existem três tipos para classificar as lesões musculares quanto à gravidade da lesão:

Tipo I (estiramento)

Causada por alongamento excessivo do músculo. Afeta menos que 5% das fibras; pequena hemorragia ou nenhuma e sem perda de função. Causa dor à contração e ao alongamento passivo, além de apresentar edema pequeno e danos mínimos ao tecido.

Tipo II (ruptura parcial)

Causada, na maioria das vezes, por uma contração máxima. Afeta entre 5% e 50% do músculo; apresenta edema, dor que piora contra a resistência, hemorragia moderada e função limitada pela dor.

Tipo III (ruptura total)

Ruptura completa das fibras musculares com presença de defeito visível ou palpável; grande edema e hemorragia com perda completa da função.

Outra terminologia, mas com semelhante significado são: leve (grau I), moderada (grau II) e severa (grau III).

Por outro lado, um estudo de 2012 propôs uma nova forma de classificação das lesões musculares, que considera as características de imagem (com base em ressonância magnética e ultrassonografia) das lesões musculares (tabela 2).

Portanto, cabe à cada clube, junto ao seu corpo médico, decidir qual a melhor forma de classificação das lesões musculares para a sua realidade.

Fatores de Risco e Mecanismos de Lesão

Existem diversos fatores de risco que influenciam para a ocorrência de uma lesão e, geralmente, são divididos em intrínsecos (relacionados ao jogador) ou extrínsecos (relacionados ao meio). Além disso, esses fatores podem ser categorizados em não-modificáveis e modificáveis (Tabela 3).

Entretanto, quando falamos em mecanismos de lesão, podemos dizer que, geralmente, as lesões musculares ocorrem na fase excêntrica do movimento e, dependendo do músculo em que ocorra a mesma, poderá manifestar-se durante um sprint, aceleração, desaceleração, chute, salto, etc.

Para resumir, entendemos que a lesão muscular ocorre da interação de diversos fatores, sendo a sua etiologia complexa, dinâmica, multifatorial e dependente do contexto.

Conforme o material proposto pelo FC Barcelona em 2018, os fatores associados as lesões formam uma teia de fatores determinantes e, certas associações entre essas causas, serão regularidades que contribuem para um padrão emergente, neste caso, a lesão muscular.

O que entendemos com as Lesões musculares no futebol

Portanto, vimos que a lesão muscular é uma das “dores de cabeça” dos jogadores, sendo responsável por cerca de 1/3 do período que estes permanecem fora de treinos e jogos ao longo de uma temporada. Vimos também que existem diferentes formas para classificá-las, mas sua recuperação segue sempre um mesmo padrão, diferentemente da sua origem, que como vimos, é multifatorial estando associada com fatores intrínsecos e extrínsecos, modificáveis ou não.

Assim, ao longo desse texto sobre as Lesões Musculares no Futebol, foi possível situar você leitor, resumidamente, sobre os principais pontos que circundam as lesões musculares. Portanto, deixamos aqui o convite para você acompanhar a nossa publicação sobre Lesões Musculares no Futebol – Parte 2, onde falaremos sobre o processo de prevenção e reabilitação dessas lesões.

Quais os principais fatores de risco de lesões?

Como vimos no texto anterior, a origem das lesões sem contato é multifatorial, podendo os fatores serem modificáveis ou não. Assim sendo, é difícil apontar a sua principal causa. No entanto, um estudo realizado em 2014 com 44 clubes profissionais de diferentes ligas do mundo, apontou 5 fatores de risco como sendo os principais, onde 4 são modificáveis e apenas 1 não, lesão prévia , como podemos ver na tabela 1.

Ainda nesse sentido, outro estudo realizado em 2016 com 33 clubes de elite da UEFA, apontou os 3 principais fatores de risco de lesão com base nos resultados coletados, dividindo-os em fatores intrínsecos e extrínsecos, como podemos observar na tabela 2.

ob o mesmo ponto de vista, mas com uma pesquisa em âmbito brasileiro em 2017, com 16 dos 20 clubes da 1ª divisão brasileira de 2015, os fisioterapeutas de cada clube responderam a um questionário estruturado e apontaram os principais fatores de risco das lesões sem contato. Em destaque os 3 primeiros na ordem de maior importância para menor importância, foram:

  1. Lesão prévia;
  2. Desequilíbrio muscular;
  3. Fadiga.

Dessa forma, fica evidente que tanto nacional como internacionalmente, o principal fator de risco é a lesão prévia. Além disso, a fadiga também é um fator importante a se destacar.

Quais os principais testes utilizados para identificar fatores de risco e prevenir lesões musculares no futebol?

As figuras apresentam gráficos indicando os principais testes utilizados para identificar os fatores de risco de uma lesão sem contato, com base nos estudos citados anteriormente aqui no texto que foram realizados no Brasil.

Assim, os testes mais utilizados para identificar o risco de lesão foram:

  1. Avaliação do desequilíbrio muscular lateral;
  2. Flexibilidade;
  3. Avaliação do pico de força muscular e avaliação da mobilidade / função articular.

Com base nas informações dos três estudos, é possível identificar que o teste presente no top 3 é aquele que faz referência à avaliação de músculos agonistas, antagonistas e membros contralaterais, além da avaliação do torque máximo, como é o caso do teste com o Dinamômetro Isocinético.

Por outro lado, com base nesses estudos citados, no futebol brasileiro todos os clubes utilizavam os marcadores bioquímicos como um fator para identificar o risco de lesão dos jogadores. Mas, no âmbito mundial, esse não é um dos testes mais utilizados.

Com que frequência se realiza os programas preventivos?

Quanto à frequência de realização dos programas preventivos, com base na literatura científica, durante a pré-temporada, 53% das equipes os realizam três vezes por semana. Entretanto, durante a temporada em semanas com um jogo, 33% das equipes realizam o protocolo duas vezes por semana e outros 33% realizam três vezes por semana. Já em microciclos com 2 jogos, 60% das equipes realizam duas vezes por semana tal programa.

Assim, 47% das equipes em pré-temporada realizam o programa de duas a cinco vezes por semana. No entanto, durante a temporada e em semanas com apenas um jogo, 40% das equipes realizam o programa duas vezes por semana. Já em semanas com 2 jogos, 55% das equipes realizavam apenas uma sessão de trabalho preventivo.

Dessa forma, podemos inferir que, durante a pré-temporada, um mínimo de duas a três sessões por semana parecem ser o mais utilizado. Já durante a temporada e com semanas completas, duas a três sessões parecem ser o mais comumente utilizado. Por outro lado, nas semanas com 2 jogos, a maioria dos clubes brasileiros realizam os programas preventivos duas vezes por semana. Diferentemente de clubes de elite de outras ligas do mundo que, em sua maioria, utilizam apenas uma sessão por semana.

Quais os principais exercícios de prevenção utilizados?

Quando falamos dos principais exercícios utilizados nos programas para prevenção de lesões, os estudos mostram gráficos com os 5 principais exercícios usados na prevenção de lesões sem contato (figura 3 e 4, respectivamente).

Conforme os resultados apresentados, apesar dos exercícios ocuparem posições diferentes na classificação em âmbito nacional e internacional, o top 5 de ambos parece ser muito similar. Com destaque para o exercício de equilíbrio / propriocepção, aparecendo como o exercício melhor classificado na comparação dos 2 estudos.

Portanto, com todo o exposto até aqui, verificamos que o fator de risco considerado como o mais importante pelos clubes internacionais e nacionais é o histórico de lesão prévia. Sendo que, o teste mais utilizado para identificar risco de lesão é aquele que faz uma avaliação muscular verificando desequilíbrios e o torque máximo de força, no caso o teste isocinético.

Quando falamos de exercícios de prevenção, aqueles de equilíbrio / propriocepção parecem ser os mais utilizados ao nível mundial, seguidos de exercícios de core, ativação de glúteo, excêntricos, etc (não necessariamente nessa ordem).

Entendimento das principais lesões

Uma vez feito todo o mapeamento das lesões musculares nos dois textos apresentados (Lesões Musculares no Futebol – Parte I e Parte II), ainda ficam perguntas no ar, como: quais exercícios são os mais indicados para prevenir lesões de isquiotibiais? Ou de adutores? Etc. Por isso, iremos falar nas próximas publicações sobre cada um dos grupos musculares e os melhores exercícios para prevenção das lesões específicas desse grupo. Desse modo, para iniciar, iremos abordar o grupo muscular dos isquiotibiais.

Fontes e Referências

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27849130/

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3940509/

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22864009/

Contato do autor:
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E-mail: ricardosa2506@gmail.com

Confira um abaixo do nosso Podcast sobre esse assunto: