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Exercícios preventivos no futebol para lesões de quadríceps

Na última publicação sobre a temática de lesões no Futebol aqui no Blog do Ciência da Bola, apresentamos uma visão mais prática sobre esse assunto. Estudos científicos mostravam os principais exercícios utilizados na atualidade, para prevenir e reabilitar, principalmente, jogadores de futebol com lesões nos isquiotibiais. Dessa forma, manteremos esse direcionamento, mas, dessa vez, apresentaremos estudos relacionados com exercícios preventivos para lesões no quadríceps.

Assim como foi mencionado no texto anterior, não é minha pretensão apontar uma resposta definitiva sobre o assunto. Mas sim, fazê-los refletir e criar ainda mais questionamentos a respeito dessa questão.

Musculatura do Quadríceps

Os músculos: vasto medial, vasto intermédio, vasto lateral e reto femoral; formam a musculatura do quadríceps. Frequentemente esses músculos são acometidos por lesões, principalmente em esportes que requerem repetidos chutes e esforços de corrida, como é o caso do futebol. Dentre os músculos citados, o reto femoral é o músculo mais comumente lesionado do quadríceps, ocorrendo, primariamente, em situações de chutes e corridas. Por tal motivo, daremos uma atenção especial a ele ao longo do texto.

Assim sendo, o reto femoral (Figura 1) é um músculo fusiforme longo, bi-articular, que forma a porção anterior superficial do quadríceps. O reto femoral proximal tem duas origens tendinosas: a cabeça direta (reta) e a cabeça indireta (refletida). As duas cabeças formam um tendão conjunto, localizado alguns centímetros abaixo de suas origens conforme a imagem abaixo.

Figura 1. A cabeça direta origina-se da espinha ilíaca anteroinferior (seta cinza) e se mistura com a fáscia anterior. A cabeça indireta origina-se mais posteriormente do acetábulo (seta preta) e mergulha no ventre do músculo reto femoral (Artigo publicado em 2008).

Mecanismos de lesões no quadríceps

Conforme citado anteriormente, os principais mecanismos de lesões no quadríceps são as ações de corrida e chute. Essas ações requerem uma atuação excêntrica do reto femoral que, combinadas com sua natureza bi-articular, o deixam vulnerável às lesões.

Na corrida, o risco de lesão do reto femoral pode ser maior durante as fases de aceleração e desaceleração. Na aceleração, o risco está relacionado com ações musculares excêntricas na fase inicial de balanço. É o momento em que o reto femoral alcança o comprimento máximo. Pois, os flexores do quadril geram força e o reto femoral precisa alongar-se para desacelerar a tíbia (ação excêntrica) conforme o joelho flexiona.

Já na desaceleração, o tronco assume uma postura mais ereta (em relação à parte inferior do corpo) e posterior, movimentando o centro de massa posterior à base de apoio. Isso resulta em forças de frenagem horizontais adicionais e, consequentemente, mais força excêntrica imposta ao quadríceps, predispondo o reto femoral às lesões.

Backswing e wind-up

Em relação ao chute (“swing“), o risco de lesão do reto femoral acontece durante as fases de “backswing” (fase inicial do swing, quando a perna está indo para trás) e wind-up (fase de swing quando a perna vai para frente). Isso para a perna de chute; e a fase de contato com o solo, para a perna de apoio.

Durante o backswing o reto femoral atua desacelerando a extensão do quadril e a flexão do joelho. Em contrapartida, durante o wind-up, o quadril começa a flexionar enquanto o joelho ainda está flexionando e o reto femoral se contrai excentricamente para neutralizar a flexão excessiva do joelho.

Por último, a fase de contato com o solo para a perna de apoio está associada a altas forças externas (força de reação do solo), mas, em simultâneo, há uma menor velocidade angular. Assim, a desaceleração durante um movimento de chute faz com que o corpo se incline para trás e a perna se mova mais atrás do corpo do que o normal, o que coloca um estresse adicional no reto femoral.

Até aqui, percebemos que o reto femoral atua de diferentes formas em diferentes momentos do jogo. Sendo, muitas vezes, exigido de forma excêntrica e requerendo de uma ótima flexibilidade.

Cadeia Cinética aberta ou fechada?

O estudo proposto por pesquisadores da Universidade da Suécia em 2003, examinou se os músculos do quadríceps eram ativados diferentemente em tarefas de cadeia cinética aberta e fechada.

Como resultado do estudo, na extensão do joelho em cadeia fechada, a ativação do quadríceps foi mais homogênea nas quatro diferentes porções desse grupo muscular em relação à cadeia aberta (Figura 2). Na cadeia cinética aberta, o reto femoral teve uma ativação mais cedo em relação ao vasto medial oblíquo, ativado por último (em torno de 7 a 13 milissegundos depois) e com amplitude menor do que em cadeia fechada.

Figura 2. Representação de dados brutos de atividade muscular em cadeias, aberta e fechada, de um único sujeito (Artigo publicado em 2003).

Em conclusão, o estudo mostrou que exercício em cadeira fechada promove uma ativação mais equilibrada do quadríceps do que em cadeia aberta. Isso pode ser importante na hora de elaborar programas de treinos direcionados para o controle da articulação patelofemoral. Entretanto, uma limitação apontada pelos autores é que os exercícios em cadeia fechada são, geralmente, realizados com flexão do quadril sendo mais relevantes para os músculos vastos do que, diretamente, para o reto femoral.

Até aqui percebemos que o tipo de cadeia cinética utilizada em cada exercício para o quadríceps influencia na forma de ativação do mesmo. Dessa forma, deveremos considerar isso no momento de prescrever treinos para prevenir/reabilitar jogadores de futebol.

Quais exercícios são indicados para prevenir/reabilitar lesões do quadríceps?

Para prevenir lesões de reto femoral é necessário incluir em um programa preventivo de exercícios de flexibilidade dos extensores de joelho e flexores do quadril. Bem como, o trabalho de força dos flexores do quadril, dos extensores do joelho em amplitude e do CORE. É preciso compreender que a redução da força/ativação dos flexores do quadril poderá resultar em uma compensação do reto femoral, o que aumentaria o risco de lesão nesse músculo.

Já para os extensores de joelho, os autores destacaram que é importante trabalhar em toda a amplitude muscular, pois se entende que as lesões por tensão muscular ocorrem quando os músculos são contraídos a um comprimento superior ao ideal. Assim, o exercício excêntrico (Figura 3) é o único treinamento que demonstrou aumentar, consistentemente, o desenvolvimento do comprimento ideal de tensão nos extensores do joelho, ajudando na prevenção de lesão. Outro ponto de destaque foi o de promover exercícios para aumentar a capacidade do corpo de produzir maiores forças de frenagem (Figura 4).

Figura 3. A – Nórdico reverso dominante de joelho. B – Estocada reversa com bola medicinal sobre a cabeça. Exemplos de exercícios excêntricos (Artigo publicado em 2014).
Figura 4. Etapas de desaceleração para frente. Exemplo para promover a técnica de desaceleração adequada ( Artigo publicado em 2014 ).

Por último, os autores mencionam que os músculos do CORE parecem ser importantes para prevenir tensões no quadríceps, pois ajudam a estabilizar a região lombo-pélvica, mantendo a postura adequada do tronco e quadril, além do equilíbrio e controle durante os movimentos estáticos e dinâmicos (Figura 5).

Figura 5. Arco de tensão. Exemplo de exercício dinâmico para reproduzir padrões e momentos de movimento de chute no tronco (Artigo publicado em 2014).

Musculatura do CORE e as lesões no quadríceps

Essa afirmação de que a musculatura do CORE pode ajudar a prevenir lesões no quadríceps é corroborado por outros pesquisadores. Em estudo liderado pelo pesquisador israelense Dello Iacono, os praticantes de um programa de treinamento do CORE, realizou uma rotina de aquecimento durante um período de 6 semanas. Ao final percebeu-se ser uma opção útil para aumentar a força dos flexores e extensores do joelho e as relações de pico de torque (flexão/extensão) em jovens jogadores de futebol bem treinados.

Por fim, conforme o material proposto pelo Barça Guideline publicado em 2018, é realçada a importância de uma proposta com uma variedade de exercícios com cadeia cinética aberta e fechada em superfícies estáveis e instáveis, de modo a fornecer uma ampla gama de estímulos aos jogadores. Destaque para exercícios com foco excêntrico, além de exercícios com padrões funcionais de treinamento e a prescrição de alongamento ativo do quadríceps antes, durante e após exercícios específicos. Os exercícios de campo incluem corrida em declive, pliometria e corrida com trenó.

Com isso, percebemos que, assim como ocorre com a musculatura isquiotibial, não existe um padrão ouro de exercícios que irão evitar totalmente o risco de lesões do quadríceps. Portanto, é necessário elaborar uma proposta com variabilidade de estímulos entre alongamentos dinâmicos, exercícios de cadeia cinética aberta e fechada, fortalecimento do CORE e trabalhos concêntricos e excêntricos. Ainda nesse sentido, tudo isso deverá ser complementado com estímulos de campo capazes de ajudar na prevenção de lesões para esse grupo muscular.

Para o próximo texto, abordaremos a mesma temática, mas agora direcionada a musculatura dos adutores. Então, se você gostou dos textos até aqui, não deixe de acompanhar as próximas publicações!

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Confira abaixo um episódio do Podcast sobre o assunto: